Aljustrel 18 de maio de 1880
Sr. redactor.—Quinze interminaveis dias, sem que o animalsinho ladre, nem ao menos rosne!!! E’ caso. Chegámos a prantear um novo desaparecimento do animalsinho. Julgando-o perdido, lembrou-nos publicar annuncios offerecendo alviçaras—oppunha-se-nos porem uma grave difficuldade—não sabermos porque nome dá o animalsinho. No auge da nossa afflicção, quando mil alvitres eram tão depressa propostos como logo regeitados por inexequiveis, esgotadas todas as idéas, exhauridos todos os recursos, e quando menos o esperavamos, surge em nosso auxilio, um amigo dedicado, um salvador, que com uma só palavra nos dá um alegrão. Que lamentações são essas? O brutinho, nem morreu, nem está doente nem frêgio, se não tem ladrado, é por certos motivos... disse o nosso amigo piscando o olho direito, afagando o bigode com a mão esquerda, ao mesmo tempo que com a direita inclinava o chapéu para traz, guardando uns d’aquelles silencios eloquentes e rodando os ares victoriosos do quem está senhor d’um segredo importante, e que d’antemão goza do espanto, da curiosidade, d’aquelles que, impacientes ou receiosos, esperam, imploram, ou tentam adivinhar o segredo. O auditorio, ao principio surprehendido, prorompeu em conjecturas: Está com grossa! dizem uns.—Não, retorquia outro—foi atacado das paludosas... nada, nada, gritam muitos, se o animalsinho não está doente e não ladra é porque o açoutaram!!! Nos labios do nosso amigo, desabrochou-se um sorriso complacente e encarando o auditorio disse: Nada d’isso, ó desvanecem. O brutinho, aquelle que nós todos julgavamos chamar-se TóW, mas que se chama Figueiró, repito-lhes, não foi victima de fatalidade alguma; se não ladra, é porque o seu tempo tem ultimamente sido empregado em certas coisas. Eu lhes digo... primeiro o pobre brutinho tem andado tratando de pôr as costas a seguro, não só por causa d’umas certas contas que para si ladram, mas tambem por causa d’umas estropelias que fez ha tempos no celeiro do pai da dona; ao mesmo tempo, e para conquistar as boas graças dos da casa, emprega todas as manhas para apanhar a melhor posta do bezerro que está para ser dividido entre a sua dona e mais parentes—além d’isso nas horas vagas tem andado a aprender habilidades... é vel-o aos domingos depois da missa, como acompanha as manas da dona quando alguma d’ellas vae tocar como madrinha a algum baptisado. Tem tanta graça o malfarrico quando vae por essas ruas, ao lado das patrôas, a andar nas patinhas traseiras e o rabinho a dar a dar... e as olhadelas que o maldito deita aos que passam, é de se morrer de riso. Nosso Senhor me perdôe—mas tem mesmo ares de gente christã. Tambem de todos os trabalhos é d’este que recebe paga mais prompta. Quando o baptisado recolhe a casa, é ver como elle se atira aos bolos—então é que é vel o fazer palhaçadas... ora aqui está qual é a sorte do animalsinho. Vocês a suporem toda a casta de fatalidade—pois para outra vez sejam mais prespicazes—e adeus. Com isto retirou-se o nosso amigo, esquivando-se aos nossos calorosos agradecimentos: o mesmo faço eu por hoje e escuso dizer-lhes. Continuar-se-ha. Arque.