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Serpa, 23 de março de 1881. Sr. redactor

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Beja · Serpa · Portugal Correspondência · Governo Civil · Igreja

Eis finalmente explicada a razão porque o sr. Affreixo julgou infructifera a visita feita pelo ex.mo governador civil a este concelho! Refere o sr. Affreixo que o ex.mo vigario pro-capitular dissera em 16 de março de 1876 que taes inspecções dão resultados proficuos, e como s. ex.ª não declarou desde logo que uma visita, e não inspecção, que em 1880 havia de ser feita pelo governador civil do districto de Beja estaria fóra desta apreciação, ou mesmo que fallando na generalidade, se poderia admittir houvesse uma qualquer excepção á regra feita conscienciosamente, entendeu o sr. Affreixo não poder haver visitas senão n'aquellas condições. Aqui temos pois explicado o caso: custou mas veio. O que ainda não veio é como póde ser passado o attestado, conforme o que vio e averiguou na escola onde esteve em 1874, segundo a sua declaração, só o sr. Affreixo, com o seu material, que ainda assim não foi visitado e observado com a attenção devida, a tão raro exemplar! Esta coherencia bem valia uma clara explicação: s. ex.ª não via cousa alguma na escola, mas para passar o attestado vio e averiguou! Este sr. Affreixo é, bem de passagem, dotado d'uma modéstia e ingenuidade pasmosa. [ilegível] Acaba o sr. Affreixo o seu procedimento de vereador e de particular; vê incoherencia entre os attestados passados pela camara, a gratificação por ella votada para a escola e as minhas correspondencias; pois se vê que não ha nestes actos desharmonia. Todos sabem, ainda mesmo os que não tem a competencia do sr. Affreixo, como na camara se decidem todos os assumptos e que ao presidente nos termos do art. 108 do codigo administrativo compete a execução das deliberações da camara com sujeição á auctoridade da mesma camara e n'estes termos, embora de opinião diversa, tem de cumprir o que por ella for determinado, sendo em muitos casos vencido, não podendo muitas vezes oppôr-se porque com isto crearia conflictos cujo resultado seria duvidoso quando a camara procede na esphera das suas attribuições. Mas ainda que assim não fora, e suppondo mesmo ter sido a camara vencida pelo presidente e passados os attestados e votada a gratificação por sua unica vontade, não haveria incoherencia. A escola como é sabido e o seu titulo o indica é um estabelecimento particular, sustentado por alguns cavalheiros d'esta localidade e aonde eu não tenho ingerencia alguma quer como presidente da camara, quer como particular e por essa razão desconhecia para mim tudo quanto lá se passava, pois nunca a visitei. Quando o sr. Affreixo requereu os attestados informei-me com quem julguei poderia esclarecer-me convenientemente e em vista das informações recebidas e do voto unanime dos vereadores entendi poder-se passar o attestado e votar-se a gratificação, não obstante as correspondencias do sr. Affreixo anteriormente publicadas que eu considerei como actos puramente levianos e aos quaes não dei importancia, sendo por esta razão desconhecidas cartas peripécias só ha pouco sabidas. Vendo depois a correspondencia publicada no numero 257 do Jornal do Povo em que me retribue tão cavalheiramente os favores recebidos, conheci não ser a leviandade só que impellia o sr. Affreixo, mas tambem a ingratidão, o despeito e a exagerada persumpção de imaginados merecimentos, e foi então que procedi a minuciosas averiguações e conheci quanto tenho dito. Aqui está explicada a supposta incoherencia. Junto o meu juizo a respeito do sr. Affreixo não é infundado que a propria consciencia lhe [ilegível]. Em vista d'esta seriedade do sr. Affreixo póde-se julgar que o seu procedimento se approxima muito da covardia e falta de pejo porque aventou a vilania, e agora, suppondo que eu não tinha o n.º 104 do jornal, quiz eximir-se á responsabilidade que só a elle compete, por ter medo! Diga que se equivocou no numero do jornal; diga ser qualquer outro que suppunha ou não ter; vá, diga para ficar mais conhecido se ainda julga estar pouco. Dar-me-hei por vencido e convencido do meu procedimento, só e apenas, com uma manifestação de cousa familiar serpousa, diz o sr. Affreixo! É esta uma boa fórma de se tirar de difficuldades e de dizer que á mingua de sensibilidade, não, ha provas para si, nem mesmo os seus escriptos! A idéa que estas palavras encerram não é novidade para mim e tanto que a acho proprissima do sr. Affreixo. Pois com a escola particular nada tenho que vêr, porque cada um pode deitar fóra o seu dinheiro se o não quizer sem dever por isso satisfações; quando a escola mudar de caracter, se mudará, e se até então o sr. Affreixo ainda não me tiver demittido, fallaremos. É esta a ultima resposta dada aos artigos do sr. Affreixo: com quem não tem coragem para se apresentar como deve ao vestuario que usa, com quem nega o que escreveu e fere á encoberta, não quero polemicas porque equivale a questionar com uma mulher. Quando fôr susceptivel de escrever como o costumam fazer os individuos que se prezam, fallaremos; pela fórma usada até agora não. Creia-me sr. redactor. Do v. etc. Bernardo Caieiro d'Almeida.