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Acontecimentos na Europa

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Paris · Alemanha · Europa · França · Itália · Reino Unido · Rússia Correspondência · Exterior / internacional

A viagem de Gambetta a Cahors e os seus ultimos discursos á imprensa parisiense é o assumpto principal na tela da discussão. As folhas que nos trouxeram os ultimos correios descrevem minuciosamente e com o mais elevado interesse as brilhantissimas recepções que o presidente da camara dos deputados tem encontrado na sua viagem, ao passo que os orgãos da direita e da reacção fallam com azedume d’essas festas, e do grande predominio que os principios republicanos encontram em todas as povoações ainda as mais sertanejas. As eleições geraes quasi se pode dizer que estão ás portas; ora a julgar pela esplendida victoria obtida pelo candidato republicano moderado no circulo de Paris vago pelo fallecimento de Girardin, o saudoso redactor e proprietario de La Liberté, bom assim pelo incremento que é espantoso adquirido pelo partido em todo o paiz, e pela admiravel tactica dos chefes da esquerda parlamentar, podemos affoitamente dizer que a victoria nas eleições pertencerá em grande maioria ao partido republicano moderado. Dos partidos monarchicos continuam a manifestar-se deserções para o campo republicano e este é facto, convem observar, altamente significativo. É no seio do partido bonapartista, actualmente dividido, que mais se manifestam estes factos. Tudo pois nos está corroborando as nossas idéas por essa forma expendidas de que a França deixou de ser imperialista e monarchica para ser republicana. Os factos fallam bem alto e são eloquentissimos. Gambetta, conforme dizemos, na sua viagem a Cahors foi alvo de ruidosas manifestações em pró da republica. Gambetta, no acto solemnissimo da inauguração disse: É necessario fazer sahir d’esta pedra o exemplo para as gerações futuras; mas podeis estar socegados que não é o exemplo nem o ensinamento da politica da aggressão, de aventuras ou de conquista. Este monumento diz, sobretudo, que estes mortos caíram porque na hora lugubre toda a nação se dá as mãos como se fôra um só homem. Sejamos indulgentes uns para os outros, pois que é certo que similhantes catastrophes desencadeando-se sobre um povo collocam-no a dois dedos da sua perda, sem que as faltas sejam communs. Uns peccam por excessos de fraqueza, outros por excessos de arrogancia, e a maioria pela sua culposa indifferença. Hoje tendes ditas garantias de que a espada da França não póde estar nas mãos de um aventureiro, que faça d’ella instrumento de oppressão interna e de aggressões illegitimas no exterior; o primeiro é o serviço obrigatorio; o segundo é o que hoje em França coisa alguma referente á paz ou á guerra, póde ser decidida senão pela vontade do povo. O exercito é o primeiro cuidado da França, ainda que a França está resolvida a manter a sua dignidade na paz. O que quer a França é que os republicanos queiram a ordem e a paz na liberdade e no progresso. As palavras de Gambetta foram ouvidas com silencio e quando acabou de fallar de toda a multidão sahiram enthusiasticos gritos victoriando-o, applaudindo-o, sendo unisono o grito de viva a republica. O mesmo se observa em todas as localidades. O povo francez é na actualidade essencialmente republicano e todos os trabalhos dos monarchicos e dos reaccionarios para derrubarem a republica serão sempre nullos. Os factos hão-de corroborar o que avançámos. Dá-se como desfeita a tentativa do chanceller allemão de combinação com o gabinete de S. Petersburgo para a realisação d’uma conferencia europeia com o fim de se chegar a um accordo na questão da extradição dos presos politicos. A frieza apresentada pela Inglaterra, pela Italia e pela França desfez a tentativa. Era de esperar. O governo moscovita, o mais interessado no assumpto, visava a ter seguros os membros do partido da jovem Russia que por qualquer circumstancia se refugiassem no estrangeiro. Nada mais, nem nada menos. Era o despotismo moscovita estendendo-se a toda a Europa. Felizmente que ficou de nenhum effeito tão horrivel idéa, que só teve por defensor o socialista-renegado da Allemanha, hoje principe de Bismark. Já que fallámos acerca do gabinete de S. Petersburgo diremos, igualmente, que o partido de acção continua segundo as ultimas noticias a encontrar adhesões em todas as camadas sociaes. No seio da aristocracia moscovita foi descoberta uma nova conspiração nihilista que vivamente impressionou o imperador que se vê rodeado de nihilistas. Anna Hellman foi morta violentamente na prisão. Dizia-se que o imperador a muitos rogos da imperatriz perdoára á infeliz jessa; hoje, porém, graças ás correspondencias enviadas de S. Petersburgo ao Intransigeant sabe-se que foi cruelmente assassinada e igualmente confirmado o infamissimo facto de que o parto prematuro foi provocado pela barbaridade dos carrascos. A noticia da morte da pobre martyr, posto chegasse ha poucos dias a Paris, o que é devido á difficuldade de se obter noticias positivas de quaesquer acontecimentos em S. Petersburgo, indignou toda a gente.