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Artigo

Circulo 119 (Beja)—Candidato constituinte—MANOEL THOMAZ FERREIRA NOBRE DE CARVALHO. BEJA 22 DE JULHO

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Beja · Moura · África · Portugal Exterior / internacional · Governo Civil · Hospital · Interpretacção incerta

O circulo de Beja já tem candidato governamental. Annunciou-o o Districto de Beja a este seu povo. Não foi escolhido pelos eleitores do circulo: é imposto pelo governo que assim deseja mostrar o seu respeito pela opinião e pela vontade dos contribuintes do circulo. Não é o escolhido dos eleitores independentes; é apenas o candidato da auctoridade. Não ha muitos dias o mesmo jornal que hoje tão singellamente annunciou aos seus leitores que o sr. José Maria Borges é o candidato governamental por este circulo, não ha muitos dias, repetimos, que o Districto de Beja contestava ao candidato constituinte o direito de novo se apresentar ao suffragio popular, porque o sr. Nobre de Carvalho não prestára serviço algum ao circulo, não levantára a sua voz, para defender os seus interesses, para advogar não sabemos que princípios, na camara dos deputados. E o sr. José Maria Borges? Onde estão os discursos do illustre candidato em prol dos seus constituintes de Moura, que também são eleitores d’este districto? Em que se tornou conhecido o sr. Borges para que o seu nome baste a todos os eleitores que só agora o conhecem de nome? Nem por sombras contestamos as eminentes qualidades do illustrado juiz que vem procurar na urna d’este circulo a sua nomeação de deputado. Nem por um momento pomos em duvida o seu muito saber juridico. Mas ha muitos juizes de igual merecimento em Portugal, e nem por isso se julga cada um com o direito de exigir os suffragios dos eleitores do circulo de Beja, sem ao menos justificar esta sua ambição com outros títulos que melhor o recommendem á escolha dos eleitores. Confessamos que nos surprehendeu a noticia publicada pelo collega; depois do que tinha escripto contra o sr. Nobre de Carvalho, era dever do Districto de Beja fundamentar a escolha do governo—visto que foi o governo e não os eleitores quem escolheu o sr. Borges—provando-nos que o circulo de Beja era devedor de innumeras finezas ao candidato governamental: demonstrando-nos que se temos um hospital com as portas abertas para os desgraçados a quem a doença prostra no leito, era ao sr. Borges, aos seus esforços, aos seus auxilios, á sua coadjuvação pecuniaria, que Beja e os seus habitantes necessitados devem tal beneficio. Pois quem não sabe que é o sr. José Maria Borges o nome que todos invocamos quando alguma infelicidade nos sobrevém, quando carecemos de auxilio, de animação, boas palavras e melhores obras, quando precisamos d’um amigo que nos auxilie e nos anime? Lá está elle, o candidato governamental, no seu escriptorio, assentado á sua mesa de trabalho, sempre prompto a deixar os seus negocios para nos ouvir e attender. Não o encontraremos nas festas e nas alegrias; mas nas tristezas, na desventura e na desgraça, lá está o sr. José Maria Borges, o candidato governamental, aquelle que todos conhecemos, e a quem todos apertam a mão leal, sempre aberta para os necessitados e doentes. Realmente o sr. Nobre de Carvalho, candidato constituinte por este circulo, foi de uma felicidade pasmosa. Esperavamos nós que um dos nossos conterraneos que mais se extremasse do vulgo, pela importancia dos seus serviços ao districto, pela elevação da sua intelligencia, pela vastidão do seu saber, se apresentasse como candidato não do governo ou do governador civil, mas dos eleitores de Beja que o tivessem escolhido á deputação por este circulo. As palavras de censura dirigidas pelo Districto de Beja ao candidato constituinte, assim pareciam indical-o. Em vez porém d’um candidato conhecido e apreciado já em Beja, apresentam-nos, de mistura com outros nomes, o dr. José Maria Borges, que poucos conhecem de nome, que relações algumas tem com esta terra, que nada lhe fez, lhe fará ou poderá fazer, apesar de todo o seu saber, de toda a sua eloquencia, de todo o seu valimento, porque nada o liga a esta terra a que é completamente estranho. E o que torna mais odiosa esta imposição de um candidato estranho ao circulo, é que o proprio Districto de Beja se encarregou de fazer a critica d’este systema nas seguintes palavras com que pretende retratar as eleições em Beja: «Em Beja não, pede-se uma votação para este ou aquelle, como o pão para a bocca, mendiga-se a eleição e ninguem se oppõe a ella pelos seus actos; depois de conseguida não pensam em ser uteis em cousa alguma, e as suas ambições nem ao expediente dos seus cargos attingem!» Apoiado, collega: são bocadinhos d’oiro que lhe sahiram dos bicos da penna, aplique o conto ao candidato governamental, e com certeza que ninguem contestará a exactidão da photographia. Teem os governamentaes andado por ahi a querer levantar os animos contra o sr. Nobre de Carvalho, porque este ex-deputado não alcançou beneficio algum para o circulo; teem-se cansado em repetir que o candidato constituinte não tem amigos e por consequencia não tem influentes; reuniram-se todas as influencias, todas as auctoridades, e quando se esperava que escolhessem d’entre tantos e tão valiosos elementos algum cavalheiro de Beja, que reuniria todos os votos, e faria emudecer todos os adversarios pela grandeza de seus serviços e pela alteza das suas qualidades, sae-nos não o ridiculus mus da fabula, mas um homem completamente desconhecido para o circulo de Beja, e se é conhecido em Moura, por onde já foi eleito deputado, não é de certo pelos serviços importantes que tenha prestado áquelle circulo. Serio, serio, collega, parece-nos que o governo foi mal informado acerca da situação d’este circulo. Não estamos em terras de Africa para onde o paquete pode levar o nome do cidadão que na volta recebe o nome de deputado. Estamos n’uma terra que tem dado sobejas provas de civismo e de amor á liberdade. Não foi pouco o que soffremos para ganhar o direito de escolher, bem ou mal, mas ao nosso sabor, o cidadão que nos representasse na assembléa legislativa, para que venham agora estranhos impor-nos um nome, e dizer-nos com sobranceria: «Este é que ha de ser o vosso deputado, porque assim o entendi e ordenei!» Pois entendeu mal e ordenou peior. Se o nome do sr. José Maria Borges sair da urna como deputado eleito por este circulo, não será o nosso deputado, mas o vosso, o eleito da auctoridade, da violencia, do odio e do despeito. Mas por honra do circulo de Beja, queremos acreditar que tal não succederá. Da urna livre só poderá sair um deputado livre e independente, que não esteja acorrentado ao passado d’um governo tão pouco escrupuloso em manter a liberdade eleitoral, e que não deva a sua eleição ao governador civil, mas sim aos eleitores. Realmente deveria ser enorme a gratidão do sr. José Maria Borges pelos eleitores do circulo que nem sequer o enxergaram ainda; quem verdadeiramente teria direito aos agradecimentos do deputado governamental seria o sr. governador civil ou antes o ministro que mandou ordem ao sr. governador civil para que fizesse eleger o sr. Borges. É o cumulo da liberdade eleitoral! Então o sr. Nobre de Carvalho não prestou serviços, como deputado, ao circulo que o elegeu? Mas diga-nos uma cousa, collega do Districto de Beja, se o sr. Nobre de Carvalho, tendo sido constante deputado da opposição, nos prestasse alguns serviços por favor do governo, que interpretação deveriamos nós dar a este proceder? Esclareça-nos n’este ponto que estamos ansiosos por conhecer a sua opinião. Antes de terminar, faremos uma pergunta a que ligamos grande importancia, porque emfim é bom saber qual é a opinião do candidato em certos assumptos. Todos os eleitores do circulo de Beja estarão lembrados de que ha alguns mezes houve um comicio em S. Carlos para protestar e representar contra o tratado de Lourenço Marques. A historia é tão recente e conhecida que não vale a pena entrar em mais pormenores. Poder-nos-ha alguem dizer se o sr. José Maria Borges, que ao que parece é primus inter pares no partido regenerador, assistiu áquelle comicio, acompanhou com a sua cooperação e influencia as opposições colligadas contra o celebre tratado de Lourenço Marques? Naturalmente o sr. José Maria Borges, costumado a fallar do alto da sua cadeira e embrulhado na sua toga de juiz, não desceu até vir misturar-se com a plebe rasa e honrada que applaudia os oradores do comicio. Foi prudente; imitou os chefes do partido. Pois podemos affirmar, sem receio algum de desmentido, que o sr. Nobre de Carvalho lá esteve, lá se demorou, lá se conservou. Quem sabe: talvez que este proceder não seja estranho á guerra surda e constante que o partido regenerador lhe tem promovido neste circulo. Em todo o caso não nos parece que a escolha do governo fosse a mais feliz, e o futuro o demonstrará.