Um pirata no Parnaso apanhado em flagrante
Portugal possue um homem cujo nome Chateaubriand, se hoje fosse vivo, escreveria na lista dos genios dominadores. Alludimos ao irmão P., auctor da inimitavel poesia que tem por titulo—Uma menina de doze annos—, inserta no n.º 228 do Bejense. Em França o genero elegiaco, commummente chamado choramingas, apesar dos esforços de Lamartine e outros, estava bem longe da perfeição. Em Portugal, onde em tudo se macaqueia a França, os carpidores seguiam os modelhos francezes, imitavam-nos, e alguns até tiveram o arrojo de copiar quasi fielmente poesias d’outrem. O irmão P., contemplou essas asquerosas lesmas que se apegavam ás producções alheias, conspurcando o que da pasta dos seus auctores tinha sahido puro e immaculado como um anjinho, e exclamou a elles: Dissemo Garrett—Aqui ha talentos para tudo—mas precisam de quem os dirija—accrescentou—e eu que vim a este mundo para escrever um epicedio, como o porco para grunhir e o burro para zurrar; eu que tenho encaixotados na minha bossa poetica estrophes que, se as publicar uma vez, farão dos olhos dos leitores cataratas de lagrymas tão perennes como o Niagara—eu serei o cabeça dos paineis funebres da minha amada patria! Calou-se, e d’ahi a pouco a cabeça do irmão P. estoirava como uma bomba! Até os proprios anjinhos se assustaram. Era a primeira erupção d’esse Etna da poesia funerea; era o irmão P. que estava pondo em escriptura os pensamentos sublimemente piegas que ha bons vinte annos rolitavam no seu caco, tentando abrir uma brecha nas paredes d’esse craneo mais duro, mais grosso, mais consistente, mais rigido do que... a cousa mais rigida, mais consistente, mais grossa, mais dura, que haja cá neste valle de lagrymas. Pranteadores, afinai o vosso alaude pelo do irmão P., e ponde de parte as Meditações e os Jocelyns, que já para nada prestam. Agora, para que o leitor possa avaliar o deploravel estado em que se achava a choramingueira neste paiz, copiamos dos Cantos Matutinos, livro que o sr. Francisco Gomes de Amorim publicou em 1858, uma das poesias mais sentidas que conhecemos: O ANJINHO (a Manoel José Gonçalves): «Era o silencio profundo, / E essa mudez dizia; / Que ninguem cá n’este mundo / Tamanha dor entendia; / A dor da mãe abraçada / Na filhinha amortalhada? / Oh! como ella contemplava / Essa porção da sua vida! / A triste ás vezes cuidava / Ter a filha adormecida; / Como ella já não gemia, / Cuidava a mãe que dormia!... / Mas logo quebrava o encanto / Do pae a acerba saudade, / Redobrando a dor e o pranto / Porque lembrava a verdade. / A mãe de novo a chamava, / Mas elle não accordava! / Depois, os padres cantando / Ao cemiterio a levaram; / Devotamente rezando / Na terra fria a deitaram; / O pae de longe os seguia / Sem saber o que fazia. / Não chores, pae desolado, / E diz á esposa querida, / Que um anjo a Deus tem dado / N’essa filhinha perdida; / Um anjo que lá nos ceus / Por nós todos pede a Deus.»