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Artigo

Comparações apropriadas

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Roma · Espanha · Europa · França · Itália · Portugal · Reino Unido · Rússia Exterior / internacional · Interpretacção incerta

O espirituoso folhetinista o sr. Pinheiro Chagas, em um dos seus interessantes folhetins, apresenta as seguintes comparações, a respeito das feras que se acham em exposição na capital: «Assim que se entra a porta, depara-se-nos o urso branco do mar glacial. Aquelle urso branco representa claramente Roma innovadora... [ilegível] ... O urso preto, que se lhe segue, é a Hespanha. Esse não faz outro movimento senão andar a trote á roda da jaula, cujas quatro paredes se chamam O’Donell, Miraflores, Narvaez. O pobrezito quer ver se encontra a liberdade e o esplendor, mas qual historia! Está no circulo vicioso! Ferro por todos os lados. O pelicano é Portugal. É sabido que affirmam a lenda que este passaro abre o seio para dar de comer aos filhos famintos. É exactamente o que succede á nossa querida patria. Os filhos esfomeados berram e salteiam-no de um modo incrivel, tanto que, como podem ver, o pobre animal está quasi um esqueleto. O bico é enorme, quasi maior que o resto do corpo. Ali poderão ver lambem claramente o symbolo do governo com o seu numeroso cortejo de administrações. Hão de tambem notar, se lá forem, que o pelicano raras vezes olha para diante, raras vezes levanta a cabeça; o bico está sempre a explorar o peito para ver se lá encontra algum resto de substancia com que possa engordar os filhos. Prestemos justiça ao nosso governo: é igualmente paternal o seu zelo. Não descança, não se farta de revolver o peito, vulgo orçamento, para ver se póde matar com algumas migalhas a fome insaciável dos seus filhos, vulgo afilhados, por catachrese, paes da patria. E, quando já nada encontra, quando vê que está completamente esgotado, recorre aos emprestimos... do sr. Bernabó. [ilegível] No leopardo com a perna partida não lhe será difficil ver o symbolo da Inglaterra, que ficou um tanto coxa depois da questão da Dinamarca; na hyena de instinctos ferozes, talvez a Rússia se lhe entremostre; [ilegível] O que lhe parece que symbolisa esse elephante vigoroso, intelligente, intrepido, mas que obedece com tanta facilidade a um cornaca charlatão, que o obriga a tocar pifano, harmonico, apito, e assustar os espectadores mostrando a pata monstruosa; que o obriga a fazer genuflexões, a soltar guinchos cortezões, que monta em cima d’elle, sem que elle um instante [ilegível] sem que, pensando na sua corça, [ilegível] esse atomo que se atreve a expol-o [ilegível] de uma plebe embasbacada? Creio que não será difficil descobrir o réu. Ha um paiz na Europa, forte, generoso, [ilegível], intelligente. Esse paiz, feito para dar leis ao mundo, recebe-as de um misero cornaca. Levanta a pata á sua voz, e esmaga quem elle lhe ordena, faz genuflexões, deixa-se mutilar com toda a tranquilidade. E tudo isto porquê? porque vive no seu socego; porque tem o comer certo; porque não tem responsabilidade de qualidade alguma; porque engorda, e, em fim, porque está sendo um bom elephant e burguez e tranquillo, que está ali sem saber porque, emquanto o cornaca pisca os olhos aos espectadores, que se riem do bruto mandrião. Esse paiz é a França, que vendeu a liberdade como Esaú a primogenitura, para socegadamente satisfazer a sua gula. O elephante e a França são igualmente felizes. Somente, diz o sr. Bertoldo, na sua linguagem eclectica, o elephante no habla. É o que succede á França. É feliz, é prospera, é grande, mas, coitada, no habla!»