Rectificações e explicações
Não podemos calcular a que por fim, com as rectificações que soffreu e vae soffrendo, ficará reduzida a carta do marechal Saldanha ao sr. Latino Coelho. O sr. visconde de Silva Carvalho para desafrontar a memória de seu pae do labéu que lhe lançou o sr. duque de Saldanha, voltou á imprensa novamente. Foi ainda no Jornal do Commercio que sua ex.ª lavrou o seu segundo protesto: «Sr. redactor,—Apenas soube da desagradavel referencia feita a meu pae na carta do sr. duque de Saldanha, quiz logo restabelecer e vindicar a verdade em honra d’esta memória para mim sagrada, e para isso apresentei o documento mais prompto por ser impresso, e também o mais authorisado, insuspeito e concludente, por ser official, por ter corrido até hoje sem impugnação, e reputar-se positivamente ao ponto preciso que o sr. duque de Saldanha designára. Mas esta primeira rectificação, posto ser terminantissima, não me dispensou em minha consciência de procurar por todas as formas levar á evidencia mais demonstrada a improcedência e absoluta falta de qualquer fundamento para a odiosa insinuação. O respeito e piedade filial abonam sufficientemente este empenho, bem justificado pela insólita affronta, para que tu necessite explicabo mais. Estou certo que me entenderão e approvarão todos os que honram seus paes. Sabia eu que o meu pae, por uma pratica naturalmente filha da sua longa residencia em Inglaterra, costumava invariavelmente lançar, para seu uso particular e exclusivo, em um diário especial, a nota quotidiana de todos os successos e occurrencias em que tomava parte, enumerando as diversas circumstancias e acrescentando convenientes reflexões. Estes livros preciosos, cheios d’interessantissimas informações a respeito de muitas cousas e pessoas, e de documentos que dão o segredo de muitos actos, estão em meu poder e conservo-os como um thesouro inestimável. Na epocha a que o sr. duque allude, segundo vejo clara e indubitavelmente n’estas informações era sua ex.ª chefe de um partido, não pouco turbulento e embaraçante, hostil á regencia que em nome e em favor da rainha dirigiu os negocios da causa liberal, e tão hostil que até lhe negou o juramento de obediência. Por consequencia, uma conferencia em Londres com personagem em similhante posição, para o fim que sua ex.ª indicou, tomando meu pae decisiva parte na idéa que se propunha, não era cousa que deixasse de ser consignada no seu diário. Fiz logo pois tenção de esmiuçar mais esclarecimentos, e talvez mais completos n’este, por assim dizer, deposito de um espirito que faltava comsigo e para si, n’esse espelho interior de uma existencia que nada tem já com as paixões e interesses de hoje. A curiosidade seria já poderoso estimul(lo) para folhear aquellas paginas em que está photographado um período, talvez occorrido por grande numero de regatos seccos, mas que todavia difficullam os movimentos. Mas eu, resolvido a publicar tudo o que ali se achasse concernente ao facto de que se trata, não podia percorrel-as sem um estremecimento de outra ordem, sem um profundo e indignado ao mesmo tempo. E achei com effeito, achei o que eu queria, e achei no que me resta tudo o que ha resuscente e de pura fé. A letra de meu pae é conhecida nas secretarias de toda a nação e por muitas pessoas que o trataram, e d’elle teem correspondencia. Póde ser facilmente comparada, e o seu tabelião que está vivo ainda não duvidará authentical-a sendo preciso. Pur minha parte declaro que estou prompto a mostrar esta nota a quem a quizer ver e para esse fim me prevenir. O morto jaz na campa, mas a sua alma parece aqui sobre-viver para escudar a sua memória, tão violenta e injustamente ultrajada. A minha obrigação é correr todos os voos para que bem de perto se observe e reconheça a incontestável verdade que purifica até da mais insignificante suspeita tudo que effectivamente se passou. Para conhecimento e instrucção e desengano do publico, transcrevo aqui a nota a que me refiro. Já se vê que meu pae não podia ressuscitar expressamente, para escrever por seu punho esta solemne refutação das allusões injuriosas, que ao sr. duque aprouve arremeçar-lhe á sepultura. Essa é portanto a voz do tumulo, mas os tumulos ás vezes teem vozes implacaveis, e os vivos que os honram teem deveres inflexiveis. Esta voz do tumulo é aqui irrefutável. Fazel-a ouvir é para mim dever imperioso.»