Protesto dos marquezes de Sousa Holstein, de Monfalim e de Cezimbra, e declaração do duque de Palmella—«Sr. redactor.—Ainda que o elevado caracter do duque de Palmella seja bem reconhecido, e geralmente respeitado, nós abaixo assignados, seus filhos, não podemos deixar de protestar publicamente contra as expressões relativas á regencia da Terceira, de que elle era presidente, que se encontram na carta pelo sr. duque de Saldanha dirigida a ... em 22 de outubro ultimo e publicada no Jornal do Commercio de 26 do mesmo mez. Diz o sr. duque: “habituado ás insidiosas propostas dos meus adversarios, que por todos os modos tentaram na emigração sacrificar-me”, e logo em uma nota acrescentando e illustrando o texto refere: “seria possível apresentar a v. muitos factos que provam esta asserção; limitar-me-hei a um só.” Conta em seguida que D. Thomaz Mascarenhas, agente em Londres da regencia da ilha Terceira, o chamára áquella cidade para ouvir do sr. Silva Carvalho uma proposta por parte da regencia. A proposta era tentar o sr. duque uma revolução na ilha da Madeira, para o que se lhe offerecia uma embarcação. Esta idéa “luminosa” tinha por fim obrigar o sr. duque a ir para a Madeira, onde apenas desembarcasse seria enforcado ou a recusar aquella missão o que o poderia descreditar. Quem ler os períodos da carta do sr. duque a que nos referimos, e não conhecer a historia daquella época, julgará que o duque de Palmella e os seus nobres collegas membros da regencia, os srs. duque da Terceira e José Antonio Guerreiro, não só foram perseguidores do sr. duque de Saldanha, mas chegaram a pretender sacrificar-lhe a vida ou a honra. Juramente magoados por uma asserção que, se fosse fundamentada, mancharia o nome respeitável do duque de Palmella, não nos demorámos a compulsar todos os documentos relativos áquelle tempo, que estavam ao nosso alcance, e entre outros o livro das actas das sessões da regencia. Em nenhum d’estes documentos achámos resolução alguma relativa ao projecto d’expedição á ilha da Madeira mencionada pelo sr. duque de Saldanha. Outro sim consultámos os agentes políticos da regencia nas cortes de Paris e Londres, os srs. D. Francisco d’Almeida, e L. A. d’Abreu e Lima, hoje condes de Lavradio e da Carreira; ambos nos declararam que nenhumas ordens nem instrucções haviam recebido para proporem ao sr. duque de Saldanha similhante expedição. Á vista pois de tudo isto e da importante declaração já feita e publicada pelo sr. visconde da Silva Carvalho, parece-nos que o sr. duque de Saldanha se equivoca; mas, ainda concedendo por hypothese que uma proposta houvesse sido feita a s. ex.ª, quem, conhecendo o caracter dos tres membros da regencia, poderia suppôr que ella tinha por fim sacrificar a vida ou a honra do sr. duque? Vem um pouco tarde esta nossa reclamação, se é que ha tarde para restituir á historia a immaculada pureza, que é a sua principal qualidade e mais formoso ornato; mas o desejo que tínhamos de proceder com todo o escrúpulo não nos deixou acudir mais cedo com esta certificação. Nenhum de nós era ainda nascido quando se passaram os acontecimentos referidos na carta do sr. duque de Saldanha; não podendo pois recorrer á nossa memória a faculdade ás vezes traiçoeira, foi preciso nos foi recorrer a algumas testemunhas que presenciaram aquelles factos, e sobretudo aos documentos contemporâneos. Ninguém respeita mais do que nós os assinalados serviços e altos feitos militares do sr. duque de Saldanha; fomos costumados desde a infancia a pronunciar o seu nome com a veneração que merece um dos homens que mais serviços prestou á causa da liberdade, cujo amor o duque de Palmella sempre inculcou a seus filhos com as palavras e o exemplo. Temos porém o direito e o dever de defender a memória de nosso respeitável pae, sobretudo quando tem de tão alta accusação, e vinda de um homem que: Primeiro tomou a iniciativa da resistencia á usurpação do throno constitucional; que depois da derrota do Porto, foi quem reuniu de novo os defensores da Senhora D. Maria II; que preparou a primeira mallograda expedição para a defeza da ilha terceira; que, sem perder o animo, organizou a segunda expedição de que resultou a segurança daquella ilha; onde desembarcou o nobre duque da Terceira, apezar da superioridade do inimigo; que por suas diligencias estabeleceu a regencia, á qual sempre presidiu; que propôz e dirigiu a libertação das ilhas do Fayal e S. Miguel; que alcançou os meios pecuniários para se levarem a effeito essas expedições, o do Algarve, e a defeza da cidade do Porto; que, tendo acompanhado a expedição do Algarve, entrou em Lisboa com o duque da Terceira, e conseguiu com a sua prudencia e elevado talento suster a effervescencia das paixões políticas. A historia imparcial ha de consignar estes factos, e o louvável procedimento d’aquelles que, segundo o duque de Palmella, longe de contrariarem a acção da regencia, promoveram e facilitaram-lh’a. Rogamos a v. Sr. redactor, a obséquio d’publicar esta carta no proximo numero do seu jornal, no que muito obsequiará os de v. etc. Lisboa, 8 de novembro de 1866. Marquez de Sousa Holstein. Marquez de Cezimbra. Marquez de Monfalim.» «Associo-me inteiramente a todos os sentimentos e declarações expostas n’esta carta pelos filhos do avô de minha esposa. Lisboa, 8 de novembro de 1866. Duque de Palmella.»
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