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Beja · Coimbra · Portugal Igreja · Romano

Provisão pastoral (José Dias Correia de Carvalho)—«José Dias Correia de Carvalho, bacharel formado em theologia e direito pela universidade de Coimbra, vigário capitular, e governador temporal da diocese de Beja sede vacante etc. Aos reverendos vigários, parochos, e capellães d’esta diocese, saude e paz em Jesus Christo. Sendo certo, que a falta do ensino da doutrina christã professada pela igreja catholica influe peniciosamente nos costumes, e attrahe a sua relaxação, fomentando a indifferença religiosa, que naturalmente conduz á perversão dos mesmos costumes, que só a religião catholica apostolica romana póde efficazmente dirigir, e reformar pela força salutar, e benefica influencia de seus preceitos. E não sendo menos certo, que aquelle ensino constitue o primeiro, e o mais importante dos deveres inherentes ao officio pastoral; seria grave a minha responsabilidade, se, na estreita obrigação de velar pelo bem do rebanho confiado ao meu cuidado, deixasse de recordar aos reverendos parochos, e mais sacerdotes encarregados da cura d’almas, nossos legítimos cooperadores na direcção do mesmo rebanho, a importancia d’aquelle dever, que, alem de ser preceituado por Jesus Christo nosso divino mestre o salvador (a); assáz recommendado pelos Apostoles (b); expressamente decretado nos cânones da igreja (c); está ainda consignado na constituição, porque se rege esta diocese (d); e foi muitas vezes lembrado em diversas providencias disciplinares pelos nossos venerandos, e dignissimos antecessores no governo da mesma diocese. Levado pois da rigorosa obrigação, e ardente desejo de suscitar a observância de tão saudaveis providencias, tenho por mui recommendado a todos os reverendos parochos, coadjutores, e capellães públicos nossos diocesanos, que façam cathechese em cada um dos dias sanctificados, ao menos nos domingos, instruindo na doutrina professada pela igreja catholica os fieis, que a ignorarem, especialmente as pessoas de menor idade, para que, bem instruidos nos principaes mysterios da nossa santa religião, possam os mesmos fieis ficar preparados para poderem alcançar um conhecimento mais desenvolvido d’aquella doutrina, a única, que pode dirigir o homem com segurança ao caminho da salvação. Recommetto outro sim aos reverendos parochos, que, alem da cathechese, façam á estação da missa conventual uma explicação clara, e breve do evangelho do dia, que accommodarão á intelligencia de seus ouvintes, e exporão de modo, que possa alcançar-se o fim, que na mesma se intenta conseguir, e que não deve ser outro se não instruir na Fé os mesmos ouvintes, e corrigir seus defeitos, e hábitos públicos peccaminosos por meio de prudentes exhortações e conselhos saudaveis. Exhorto finalmente os reverendos parochos a que não deixem de persuadir aos pais de familia a rigorosa obrigação, em que estão de promover a educação de seus filhos, aproveitando o beneficio da instrucção, que gratuitamente lhes é dispensado nas escolas publicas. Collocados pela sua posição especial de pastores das almas na rigorosa obrigação de velar pelo bem das mesmas ensinando e pregando a doutrina da salvação, podem mui efficazmente cooperar, para que a instrucção se generalise a todas as classes sociaes, procurando, em suas praticas e exhortações doutrinaes convencer os chefes de familia, de que na educação de seus filhos, se for bem dirigida, vai empenhado o proprio interesse d’elles, e da sociedade, quando se tornem cidadãos prestantes pela sua illustração e virtudes. Podem ainda nas inspecções, que se intentam fazer ás escolas publicas de instrucção primaria, offerecer uma coadjuvação valiosa aos funccionarios, a quem forem commettidas estas inspecções, ministrando-lhes da melhor vontade todos os esclarecimentos ao seu alcance, para que, os mesmos funccionarios, assim coadjuvados, possam desempenhar-se com mais facilidade, e proveito de tão laboriosa, e importante missão. Esta cooperação em prol da instrucção, que muito é de esperar do zelo e illustração dos reverendos parochos nossos amados diocesanos, e á qual mui instantemente os exhorto, é aconselhada não só pelo bem estar da sociedade, mas ainda pelo proprio interesse da religião, que felizmente professamos; a qual no intuito de promover o aperfeiçoamento moral do homem, para poder conseguir a felicidade eterna, não pode deixar de inspirar, e persuadir o combate contra a ignorância, que é a fonte fecunda de todos os vicios. Esta provisão pastoral será remettida aos muito reverendos vigários da vara, que a farão girar por todas as freguesias de seus districtos, e, depois de lida á estação da missa conventual, e copiada no livro das pastoraes pelos reverendos parochos, será affixada nos logares do costume. Dada em Beja sob o nosso signal aos 13 de novembro de 1866. José Dias Correia de Carvalho.»