Noticias de Mertola
Em data de 12 de novembro diz-nos o nosso correspondente: Obras publicas—As mais importantes noticias da semana é o incremento que se manda dar ás obras da estrada entre Mertola e o monte da Cella, e os 43:598$620 reis para a construcção do lanço entre Algodor e Cella. É medida importante por qualquer maneira considerada, quer pela necessidade da viação, quer pela urgencia de dar trabalho a milhares de desgraçados que vivem d’ella. Trabalhos—Consta que na mina de S. Domingos admittem mais uns 100 homens nos trabalhos da corta como elles lhe chamam. É um auxilio n’estes sitios de tanta gente trabalhadora. Presos—Já deve estar preso n’essa cidade o soldado de infanteria 17 João Augusto—aquelle que quiz divertir-se um dia a passar a cacete tudo que encontrou nas ruas da povoação da mina de S. Domingos. Dizem-nos que o sr. tenente Valente, seu commandante, o mandara enganado a titulo de diligencia. Já é ter força moral, e confiança na disciplina!... Acha-se preso na cadeia d’esta villa o irmão e companheiro Antonio Augusto, faltando porem Francisco Lamprea, tambem soldado, que não tem menos criminalidade, e toda a povoação da mina lhe pede o castigo, porque pareciam tres feras atacadas de hydrophobia a morder a humanidade, sem respeitar policia nem obedecer a superiores. O sr. administrador d’este concelho não se descuida no cumprimento de seus deveres, quando por tal forma a ordem é alterada. S. s.ª mandou o seu escrivão syndicar á mina, e cremos que os delinquentes estão mettidos em processo. Para barbaros é o castigo uma necessidade, com que muito lucra a sociedade. Mau systema—Na mina de S. Domingos hão estabelecido um systema que se não harmonisa com o regular andamento do proficuo e licito commercio. O individuo ali, com raras excepções, come, bebe, veste e calça a credito de 30 dias, ainda mesmo que tenha as algibeiras recheadas de libras, de sorte que taes devedores quanto tencionam mandar-se mudar, quer tenham muito quer pouco dinheiro, mudam-se sem dar cavaco aos credores, deixando um calote geral em todas as casas de credito. Este modo de negociar tem arrastado quasi todos os que se tem ali ido estabelecer, e os que o não estão, espera-os um egual futuro, por ali não se tratar senão de comer, beber e trapacear, systema que traz comsigo muitas vezes resultados de sevícias e funestas consequencias. Não vae distante que um d’estes comedores deu ás de Villa Diogo com quatro libras de divida, o credor caminhou sobre elle e encontrando-o ao passar o Guadiana ahi se pagou tirando-lhe a vida, talvez por não dar tempo a que o devedor lhe pagasse n’esta mesma moeda. E senão ha d’estas todos os dias é porque a empreza não tolera muito os desordeiros dentro das suas demarcações; do contrario a heterogeneidade de um pessoal todo alheio e de duvidosa moral e costumes não se continha ainda tanto nos limites da ordem. Obras municipaes—Mertola vae dando passos na ordem da civilisação—vae calçando os seus largos e ruas, e tambem se estenderá ás avenidas. A estrada em construcção deve tambem ser um elemento de prosperidade para esta terra, na posição em que ella se acha. O sr. Jacinto José da Palma é um presidente de mérito: já o lemos dito, e repetiremos mil vezes, porque o louvor não é mais do que a justa paga de boas acções e bons serviços. O concelho de Mertola tem pessoal, mesmo ruralmente faltando: ha porem no campo dois cavalheiros que pela sua independencia, pela sua esclarecida razão e nobres qualidades humanitarias nunca devem deixar de fazer parte da camara municipal—pelo meu voto sempre o seriam. Saude publica—O anno de 1867 foi mau de producções cereaes, mas de saude é o melhor de que nos recordamos. Mortes quasi nenhumas, e doenças apenas algumas intermitentes. Os boticarios não dirão bem d’elle. Prior—Temos o revd.° Urbano Madeira da Costa, despachado prior de Mertola. Felicitamos s. s.ª e desejamos-lhe feliz provir. A freguezia rende, mas é trabalhosa; e o sr. Urbano está pesado, tendo por coadjuctor o sr. padre Antonio Joaquim de Brito, tambem em decadencia pelos annos e pelos padecimentos. O sr. Urbano tem assim que luctar com algumas difficuldades, por cousas, que só o tempo descobrirá. Perdemos o sr. prior Guerreiro, que tinha o defeito de ser demasiadamente bondoso e ter o coração de um anjo; ninguém negará estas qualidades áquelle santo homem e por aqui ha hoje defeitos que se assemelham a maus costumes, que talvez o sr. Urbano não queira tolerar religiosamente fallando. Eis pois a causa primordial d’onde podem surgir desgostos áquelle sr. Aqui ficamos por hoje. S. G.