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Artigo

A partida da esquadrilha

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Lisboa · Loulé · Portugal · Rússia · Sabóia Exterior / internacional

Eram 10 horas da manhã, e um grande numero de cavalheiros chegava ao arsenal da marinha para dar as ultimas despedidas á luzida comitiva que ia partir para Turin, para acompanhar d’ali a Portugal a futura rainha dos portuguezes, a sr.ª D. Maria Pia de Saboya. Pelas 10 horas e um quarto estavamos a bordo do navio almirante (corveta Bartholomeu Dias). Ás 10 e meia assistíamos á missa da guarnição. O convéz do bello navio de guerra estava literalmente cheio. Ministros de estado, pares do reino, officiaes de terra, um luzido numero de officiaes de marinha, jornalistas, muitos particulares de differentes ordens da sociedade, a comitiva expedicionaria, e a guarnição do navio attestavam a grandeza das coisas da terra, quando, apresentando-se o symbolo da Divindade, tudo se prostrou humillissimamente. Ha muito tempo que não assistimos a um acto religioso, que tanto nos commovesse, como a missa a bordo da Bartholomeu Dias! A musica da armada tocava peças apropriadas, que mais excitavam o nosso sentimento religioso. Ali, aonde estavam misturadas todas as cathegorias, mas aonde preponderava a parte mais culta, elevada e preponderante da sociedade portugueza, poderia o philosopho estudar o caracter d’este povo, essencialmente bom, pio e religioso! Durante a ceremonia, o sepulchral silencio, e o mais profundo respeito! Concluída a missa, demos as nossas despedidas de “boa viagem” á comitiva presidida pelo sr. marquez de Loulé, e voltámos para Lisboa. Passamos em revista as coisas do Bartholomeu Dias: A camara destinada á esposa do nosso monarcha estava arranjada com riquesa, e bom gosto. Não tivemos tempo para tomar os necessários apontamentos; mas podemos asseverar que o Bartholomeu Dias está com um aceio que cremos não excedivel, e em um optimo arranjo. A guarnição do leito da nossa futura rainha fazia um excellente effeito. A esquadrilha fez-se á vela pelas 11 horas da manhã. Deus traga a salvamento a fiel companheira do nosso monarcha, a rainha dos portuguezes! A bordo dos navios da esquadrilha foram as pessoas commissionadas para assistirem ao ceremonial do casamento da illustre princeza italiana, e conduzila depois a Portugal, e cinco italianos, e um addido da embaixada de Turin, por pedido especial do sr. conde de La Minerva. Houve mais de 500 pedidos, que não foram, nem podiam ser attendidos. Os srs. conde de La Minerva, e embaixador da Rússia fizeram os seus cumprimentos de despedida á comitiva, nas escadas do arsenal da marinha. O sr. general de divisão, conde de Santa Maria, chegou quando nós tínhamos desembarcado, certamente (como pensamos) por inconveniente invencivel. A esquadrilha vai a Gênova, com escala por Gibraltar, onde tomará práticos, e conta-se estará de volta a Portugal de 6 a 10 de outubro. A nossa futura rainha virá de Turin directamente a Portugal. El-rei o sr. D. Luiz visitou a esquadrilha no sabbado ultimo, mostrou-se mui satisfeito do estado em que estão postos os navios e do aceio irreprehensivel da tripulação, e, demorando-se em examinar a camara que deve receber sua futura consorte, apreciou a riquesa, conforto e bom gosto que ali reinam. (Doze de Agosto.)