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Beja · Braga · Coimbra · Portugal Islâmico · Romano

Subiu á scena no domingo o 29 ou Honra e Gloria. Este drama vimos-o, em Coimbra, muito bem representado. Desempenhou o papel de 29 o sr. Simões e colheu não poucas bagas de ouro para a sua corôa de artista. Tínhamos porem para nós que o papel de 29 podia ser mais alguma cousa. Ter um melhor encarreto. E o tempo veio mostrar-nos que não nos enganavamos. Domingo, vimos no mesmo papel, o sr. José Romano, e ficámos plenamente satisfeitos. Sahimos impressionados o mais agradavelmente possivel. E como nos sahio no numeroso concurso que foi ouvir o actor do Feio de corpo. O sr. José Romano andou magistralmente e no segundo acto foi onde começou a revelar o seu talento. Não proferio nota que não fosse afinada pelo diapasão dos verdadeiros affectos, não fez um gesto que não traduzisse fielmente o que lhe ia n’alma. A tempestade que começou a formar-se quando ouvio a voz de sua filha no quarto de Jorge rebentou n’um grito terrível que fez estremecer a platea—mãe—e assumio proporções medonhos na maldição. A posição em que o sr. José Romano fica depois de amaldiçoar Clara não se descreve. Foi n’aquella posição—admiravel e digna de ser copiada—que o actor vio curvar-se a platea e prestar-lhe homenagem ao seu talento. Os bravos e as palmas rebentaram espontaneas. Houve enthusiasmo. Depois do panno cair o sr. José Romano foi chamado fóra cinco vezes e applaudi do freneticamente. Em nenhuma das vezes porem veio só. Fez-se acompanhar por outros artistas repartindo assim com elles os applausos que lhe deram. O acto terceiro começa por um sonho—sonho de esculptor e sonho de maestro—A orchestra, se attendermos a que é composta de curiosos, executou-o bem. O sr. José Romano declamou perfeitamente. Ainda no sonho foi superior a Simões e no perdão satisfaz os mais exigentes. Colheu tambem muitos applausos e teve chamadas. No quadro final foi admiravelmente o que lhe valeu uma chamada fóra e a platea, saudando-o de pé. O sr. José Romano deve estar satisfeito com o brilhante acolhimento que recebeu em Beja. É verdade que não teve corôas, nem bouquets mas teve uma cousa que vale mais:—teve homenagem sincera ao seu talento, teve uma festa espontanea n’uma terra desconhecida, onde se apresentou sem recommendações mas forte na sua consciencia de actor. Agora fallaremos dos outros actores. Coube ao sr. Silva Junior o encarnar-se no typô já de si faceto e o sr. Silva Junior apresentou-se com a sua graça natural. Foi optimamente. Sentio-se á vontade e espraiou-se, permittam-nos a phrase, nos horisontes vastíssimos de um Batatudo—fazendo-nos rir a mais não puder. Ainda assim, na scena do primeiro acto, no manejo de armas, o sr. Sá, (alferes instructor) pela precipitação das vozes do commando, não o deixou dar largas, á sua veia comica: não o deixou tirar todo o partido que podia tirar. Mas como não havia de ser assim se o sr. Sá parecia mais recruta do que instructor... Prompto sempre a fazer justiça o publico chamou o sr. Silva Junior e pagou o seu esmerado trabalho com uma salva de palmas. Depois de Silva Junior temos o sr. Soares (Jorge), É difficil o papel e o sr. Soares empenhou-se em superar as difficuldades, e no todo foi regular. Já não fez pouco. O sr. Silva (Manoel) fez a parte de sargento Placido. E o dialogo no carcere, entre Placido e 29 um dos mais mimosos do drama. A scena está bem traçada e leva, sem esforço, ao seu magnifico final. Pois essa scena ficou compromettida bastante porque o sr. Silva, (Manoel) que sempre se esmera em representar bem, estava na dependencia do publico. Por isso faltou toda a viveza que o auctor imprimiu ao dialogo e houve arrefecimento. Um militar que assistio a combates e que, convertendo-se com um seu companheiro falia acerca d’elles, não o faz como o sr. Silva o fez. Falla com enthusiasmo. Toma calor. E foi justamente enthusiasmo que lhe faltou: e a razão demol-a ja. Pois o sr. Silva por si, e pelo publico e sobretudo pelo actor com quem jogava em scena devia ter estudado mais a sua parte, porque não deve ignorar, não ignora de certo, que ha cousas que qualquer personagem, ainda que tenha uns hombros [ilegível] como Atlante não póde aguentar. E a prova temol-a ja. Se o sr. José Romano estivesse acompanhado, achara o justo complemento do seu trabalho de actor. O sargento Má Cara (o sr. Mendonça) foi bem e ao sr. Sanguinetti (Ercopeça) não temos senão a tecer-lhe louvores. É sempre correcto este actor e captado a sympathia da platea. Assim, tem elle captado a sympathia da platea; assim demonstrou ella, applaudindo-o, que sabia avaliar o seu trabalho. O sr. Sanguinetti deve dar-se por satisfeito porque vio bem coroados os seus esforços. E nós dizemos que o sr. Sanguinetti é cuidadoso porque o temos observado attentamente. Nunca se apresenta em scena que não seja com o maior rigor. Ainda no domingo quem repassasse conhecia logo que o lenço que elle trazia na algibeira da jaqueta não tinha sido mettido ao acaso, mas mui calculadamente e que a cabeça, affeita ao carapuço do rancheiro, estranhava o pesado chapeo de Braga, assim como o tronco se sentia apertado n’aquella famosa jaqueta. Revellou estudo e observação o sr. Sanguinetti. É assim que nós gostámos do actor, verdadeiro em tudo. Fallam-nos as damas. Maria coube á sr.ª D. Maria José e a sr.ª D. Candida encarregou-se do papel de Angélica. Admiravel na Tia Angélica do O. da Novella, fazendo rebentar a gargalhada, a sr.ª D. Candida na Angélica das Dores, do 29 esforçou-se, no terceiro acto, por enternecer-se e enternecer-nos. Embora a não auxiliasse em tudo ainda assim, a boa vontade, servio-lhe em muito. A sr.ª D. Maria José, a actriz que todos apreciam pelo modo correctissimo porque diz sempre a sua parte, compenetrou-se da idéa do papel e traduziu-a na forma o melhor que pende. Até ao fim do drama conservou-se na mesma altura. Não rastejou. Damos-lhe os nossos sinceros parabéns. Quinta feira repetiu-se o 29 e no domingo teremos o Simão, o tanoeiro. A parte principal desempenha-a o sr. José Romano.