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Artigo

Cavalheiro d’industria

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Alvito · África · Portugal Exterior / internacional

Antonio da Rocha Raposo, lavrador no concelho de Ferreira, achava-se em Alvito por occasião da feira, e vendo um bello furão disse áquelle que o trazia: —Quanto vale o bicho? —Um soberano. —Dou-lhe tres mil reis, serve-lhe? —É o furão seu. Antonio da Rocha puxou uma peça e entregou-a ao homem dizendo-lhe: —Pague-se. —Não tenho troco, mas se... —Se quer eu lhe faço o troco, disse um figurão de calça de casimira, fraque e bengalinha de couceiro... —Faz-me muito favor, disse o Rocha. —Então venha d’ahi. O figurão entrou n’uma barraca, cochichou ao ouvido do dono d’ella e puxando duas libras disse ao lavrador: —Dê-me dez tostões. O lavrador na melhor boa fé entregou-lh’os, quando um outro disse: —Então tu vaes dar-lhe o dinheiro sem pesares a peça e sem veres se é boa? —Tens razão, vê-a lá; e entregou-lh’a. Este passou-a a um dos outros que se achava presente, e assim foi de mão em mão até que o cavalheiro disse: vou leval-a ali áquella loja para a pesar; espere um pouco. E sahiu. Decorreu uma boa meia hora, e Antonio da Rocha roendo as unhas e coçando-se exclamou: —A modos que o tal senhor demora-se? Os que estavam na barraca soltaram uma gargalhada, dizendo-lhe: —Que ratão!! Não vêem como elle se deixou roubar? Ao ouvir isto o lavrador deitou a correr e entrando na administração do concelho contou o que lhe havia acontecido á auctoridade; esta chamou o regedor José Maria Lopes e ordenou-lhe a captura do ladrão. O Lopes, honra lhe seja feita, portou-se como um perfeito Canarim e tanto fez, tanto andou, que passada uma hora mettía o melro na gaiola; verdade seja que se demorou lá pouco tempo, porque o administrador, entregues os 9$000 reis ao lavrador, poz ao fresco o honrado cavalheiro, para quem as Costas d’Africa deviam ser o premio de suas gentilezas.