O temporal
Na pequena povoação do Pomarão, differentes armazéns, os quartéis, o palacete e estação telegraphica da empreza da mina de S. Domingos, foram arruinados pela cheia do Guadiana.
Na pequena povoação do Pomarão, differentes armazéns, os quartéis, o palacete e estação telegraphica da empreza da mina de S. Domingos, foram arruinados pela cheia do Guadiana.
As colmeias, que o sr. Manuel de Mello tinha junto aos ferragiaes do sr. José Baptista, que partem com o barranco da Lobeira, foram arrastadas pela cheia.
A cheia do Guadiana subio mais quatro metros do que a de 1823.
Não morreu o conductor das malas de Serpa, nem estas se perderam.
Na Zorrinha, propriedade que dista desta cidade uns 5 kilometros, a impetuosidade do vento, acompanhado de aguaceiros, foi tal que uma casa ficou sem telhado, sendo as telhas arremessadas a uma grande distancia.
Das barcassas do Pomarão levadas pela cheia, algumas ainda poderam ser salvas em Villa Real.
se o primeiro correio da margem esquerda do Guadiana.
A cheia arrastou para a ermida de S. Sebastião, em Mertola, algum peixe. Pendant ás cobras que o Tejo levou para Lisboa.
Na herdade dos Falcões, um grande bortejo foi completamente destruído pela agglomeração violenta das aguas.
Já está restabelecida a navegação no Guadiana e a carreira de diligencias entre Beja e Mertola.
Ficou muito damnificada pelo temporal a ponte de Odivellas.
Do muro que separa o antigo jardim, da parada do quartel do regimento 17 de infanteria, abateram, com o temporal, uns 16 metros.
A estrada municipal de Beja a Baleizão, está em parte, damnificada bastante com as chuvas.
O gado lanigero soffreu com o temporal como nenhum outro, muitas cabeças morreram de fome ou enterradas na lama.
Nas terras baixas, as cevadas que já estavam nascidas, foram levadas pelas aguas.
Dez moinhos em Odivellas foram destruídos pela cheia.
Em Baleizão cahiram com o temporal algumas casas.
No Guadiana quatro pilares da ponte em construcção, foram levados pela cheia.
Os moinhos de Cardeira, ficaram quasi completamente destruídos pela cheia.
Na rua de Mertola, houve casas em que a agua penetrou em abundancia, e porque enchurrava nos quintaes, os moradores tiveram de abrir valas para a esgotarem.
Na casa da barca, no Guadiana, ficou marcado com um risco, até onde chegou a cheia. Seria de toda a conveniencia que se collocasse, como em 1823, uma lapide. A proposito. Esquecer-se-ha a actual camara de Mertola de seguir o exemplo dado pelos vereadores de 1823? Deus queira que não.
Era verdade o que se dizia do mau estado da ponte da via ferrea do caminho de ferro do sueste sobre a ribeira de Alvito. A ponte está arruinada bastante e as obras que reclama são de importancia.
Nas margens do Guadiana, tem apparecido morto muito gado lanigero e bovino, bastante caça e alguns lobos. A quantidade de madeiras não é pequena tambem.
O primeiro correio do Algarve que se recebeu em Beja, depois do temporal, foi no sabbado.
Junto a Valle de Mertola, a corrente da agua foi como não ha memoria. Houve occasião em que a enchurrada passou por cima do Poço Largo.
No Degebi morreram quatro homens afogados e a corrente arrastou bastante gado suíno.
Em Baleizão, o pontão no ramal da aldeia Nova para a aldeia Velha ficou completamente entulhado.
O primeiro comboyo de mercadorias da linha de sueste, depois do temporal, recebeu-se domingo em Beja. Na ponte de Alvito ha baldeação.
A’ noticia que démos de terem sido levadas pelas aguas do Guadiana as barracas da construcção, temos a accrescentar, que cordas, ferramentas, carros etc. etc. tudo foi por agua abaixo.
A agua, na Figueirinha, inundou a estação da via ferrea e subio á plataforma.
Tinham sabbado começado os trabalhos para o esgoto do Pego, no sitio da ponte de Alvito, mas foram interrompidos por causa das chuvas que recomeçaram na noute de segunda feira.
A pharmacia de Mertola ficou completamente destruída pela cheia do Guadiana. O prejuizo é avaliado em 3:000$000 rs.
Acabaram as baldeações na linha ferrea de sueste em Poceirão e pontes de Valverde e S. Brissos e está desobstruída a trincheira do [ilegível].
Já estão restabelecidas as communicações telegraphicas com Evora, Barreiro e Vendas Novas.
A ponte da estrada municipal do Alvito ficou sem as guardas e o accrescentamento moderno, tres arcos, a agua deixou-os em osso.
Quando encheu a ribeira de Odivellas duas creanças procuraram salvar-se fugindo para um telhado. A agua demolio a casa e o enmadeiramento do telhado foi levado pela corrente. Das creanças uma, ao passar perto de uma oliveira, lançou mão a uma pernada e salvou-se. A outra continuou levada pela corrente sobre a trave. Escaparia? Deus o queira.
A ponte das Ermidas foi levada pela cheia.
Na ponte do Outeiro, na via ferrea desta cidade ao Algarve, a cheia chegou palmo e meio abaixo do taboleiro.
Junto á ponte do Ter, no caminho de ferro do sueste, o aterro abateu, com o peso da agua, um metro.
Na quinta do Castello, a força da corrente da agua foi tal que em uma não pequena extensão de terreno, removeu a terra á profundidade de dois metros, até encontrar rocha!
Na estrada municipal de Beja a Ervidel, as aguas, no sitio do Carrascalão, porque o aqueducto não lhes deu sahida galgaram o aterro e destruiram-no.
Em Mertola, a agua, na quinta do nosso bom amigo o sr. José Pedro da Lança Cordeiro, arrasou as casas, derrocou o arvoredo etc. etc. Os prejuizos calculam-se em 6 contos de reis.
Na noite de quarta feira, (13), houve trovoada acompanhada de fortissima ventania e agua de pedra.
Até os santos caem de moda! Teve o seu bom a santa Luzia que se venera na matriz; foi a festividade chic, de ton, a que se celebrava em S. Thiago, ha annos, á mesma santa Luzia no dia 13 de dezembro, e agora entrou em moda, está na berra, outra senhora santa Luzia—a da Conceição. Esta é que teve funcção de truz; matinas, ladainha e missa por musica vocal e instrumental, sermão, foguetorio, o diabo a quatro principalmente na madrugada de terça feira. Em Beja as solemnidades como se sabe para serem... solemnes hão de ter logar ou pela madrugada ou á noite. São as horas mais convenientes para... os devotos e devotas a quem a Senhora Santa Luzia conserve a vista por muitos annos e bons. Amen.
caso raro!—descobriu a quem pertencia a creança que foi em uma destas noites abandonada na rua da Esperança. É de uma mulher de Cuba. Levantaram-se os competentes autos.
A commissão de viação approvou as condições para a adjudicação do lanço a construir na estrada de Almodovar a S. Sebastião.
Tivemos espectáculo no theatro provisorio, sexta feira, domingo e segunda feira. Sexta feira representou-se, pela terceira vez, com geral applauso, La soirée de Cachupin, e a zarzuela em dois actos Entre my muger y el negro, que subio á scena pela primeira vez, naufragou. Não admira, ainda durava o temporal e o barco foi dirigido pelo sr. Blanco. Requeria outro pulso o leme, pedia piloto experimentado o estado do mar. Domingo deram-nos El hombre es débil, C. de L. e Pascual Bailon. Foi noite cheia para os espectadores porque tiveram um espectáculo escolhido, e para a empreza porque a sala se encheu. No Hombre es débil, não temos senão a louvar aquelles que a desempenharam, no C. de L., quadro cheio de verdade e em que por mão de mestre se põem bem em relevo uma das virtudes da sociedade de hoje, ainda nos sentimos com vontade de applaudir a sr.ª Blanco, pelo mimo com que cantou a Barcarola, a sr.ª Lacida pelo bom que foi na Habanera e o sr. Benitez, Aguado e Larripa, pela maneira irreprehensivel porque disseram as suas partes. C. de L. foi das zarzuelas que nesta epoca se cantaram em Beja e que correu mais egual. Para tudo ir bom até o sr. Blanco foi feliz na caracterisação! Pascual Bailon foi tambem excellentemente. O sr. Aguado no beato, o sr. Larripa no caucanista, e as damas colheram muitos e bem merecidos applausos. O can-can esteve para ser bisado mas no couplet final, a maioria conheceu, ao ouvir cantar o sr. Larripa, que obriga-lo a repetir a lição era uma barbaridade e os enthusiastas concordaram. Segunda feira, repetio-se El Relampago e a obra prima de Barbieri foi palmeada pela terceira vez com enthusiasmo. Nessa mesma noite tivemos um concerto. Eis as peças que o compozeram: Phantazia de piano, executada pelo sr. Antonio Joaquim Trindade—A Giralda, duo de violino e piano, executado pelos srs. Emilio Bernardo Neves Alves e Trindade—Phantazia de tibia, executada pelo sr. Antonio Roman Navarro. Os concertistas foram muito e muito applaudidos e mais nos pareceu ouvir professores do que curiosos. É a verdade pura. O producto da recita reverteu em beneficio da viuva e filhos do violino da companhia. A companhia seguio para Evora quarta feira. Tarde desapparecerão as agradaveis impressões que soube deixar-nos. Oxalá a acompanhe sempre a felicidade.
José Maria de Campos Camacho, juiz ordinario do julgado de S. Theotonio, concelho de Odemira—exonerado; Joaquim Antonio de Mattos nomeado para o logar do antecedente; Mauricio Pincha, nomeado primeiro substituto do juiz ordinario do referido julgado.
Teve hoje revista de correame e armamento o regimento 17 de infanteria.
1875 foi dada quitação, pelo tribunal de contas, ao sr. José Pedro Nobre Taveira, director do correio de Odemira.
Foi infundado o boato de haver succumbido por envenenamento a mulher hospedada em casa do nosso amigo o sr. Gustavo Carlos de Souza. As visceras da infeliz foram analysadas no laboratorio em Lisboa e os peritos declararam que não continham principios toxicos.
Foi approvado quarta feira, pela commissão de viação, mais um lanço de estrada de Vidigueira ao Pedrogão.
Sabemos por pessoa competente que a ex.ma sr.ª D. Maria Honorata da Matta Ribeiro, vae estabelecer um collegio de meninas no Largo da Corredoura Velha, que ella mesma dirige: ensina a ler, escrever e contar, systema metrico, grammatica e geographia, coser, fazer meia, crochet, bordados de differentes especies, marcar e fazer flores. Esperamos que seja coadjuvada pelos seus patricios para poder colher o fructo da nobre missão que a si propria impoz. Recebe tambem alumnas internas de qualquer terra do districto.
Estão a concurso por provas publicas as egrejas de Albernôa, Alfundão, S. Barnabé, Santa Luzia de Garvão, S. João de Negrilhos, do Rozario e de S. Bartholomeu da Serra. Os editaes estão affixados no logar do costume.
Trabalhou terça feira no campo de Oliva, commandada pelo sr. tenente coronel do 17 de infanteria, uma força do mesmo regimento.
Foi nomeado auditor desta divisão militar o juiz o sr. Alvaro Ernesto do Seabra.
Foi concedida provisoriamente ao sr. Francisco Detlof Fewerheed, a mina de cobre da Ricada, freguezia de Sant’Anna de Cambas, concelho de Mertola, neste districto.
A banda do 17 de infanteria tocou, domingo, no largo nove de julho desde a uma da tarde até ás trez. Eis as peças que desempenhou: 1.º Ordinario Beja; 2.º Tercetto final do 2.º acto da opera Baile de mascaras; 3.º Scena e duetto de tiple e baixo da opera Rigoletto; 4.º Walts Brilhante; 5.º Côro e duetto de tiples da opera Estrella do Norte; 6.º Mazurka Imirteza; 7.º Walts O vaporoso.
Teve approvação do seu orçamento ordinario para o anno economico de 1866-1867, a camara municipal de Serpa.
O sr. José Joaquim Velloso, recebedor interino desta comarca, no periodo decorrido de 21 de outubro a 11 de dezembro de 1874, foi julgado quite para com a fazenda publica.
Foram julgados quites para com a fazenda publica pela sua gerencia no anno economico de 1874-1875 os directores do correio de Aljustrel, Evora, Portel, Moura, Mertola e Serpa.
Recebemos e agradecemos o fasciculo 6.º da Historia de Portugal pelo sr. Ennes. Acompanha o fasciculo uma bella gravura intitulada Testamento de D. Sancho I.
O sr. J. Sabino Paes Gago, escrivão do direito na comarca de Fronteira, foi transferido para Beja.
O sr. José Pedro Caeiro de Almeida, thesoureiro da alfandega de Serpa, foi julgado quite para com a fazenda publica pela sua gerencia no anno economico de 1874-1875.
Foi transferido da alfandega de Serpa para a do Porto, o guarda a pé, de 2.ª classe, o sr. Francisco da Silva Jordão.
se provisoriamente na casa da administração do concelho.
Os srs. engenheiros Trigueiros e Paes teem andado inspecionando a linha ferrea do sueste.
Recebemos e agradecemos o 7.º fasciculo do bello romance Os filhos perdidos.
Como já deve saber, esta villa acaba de soffrer uma das mais lastimosas catastrophes, que podem affligir uma povoação inteira. A brutal e medonha cheia do Guadiana nos dias 6 e 7 do corrente, dias que entre nós hão de ficar tristemente celebres, reduziu á completa miseria um grande numero de familias, e causou perdas consideraveis a outras, que estavam em melhores circumstancias, levando-lhes mobilias, madeiras, arvores, sementeiras etc., e derribando e devastando campos, armazens, casas de habitação, e finalmente tudo quanto encontrava a sua corrente impetuosa e destruidora. Foram dois dias de profundas afflicções e de inextinguiveis magoas para a maior parte dos habitantes de Mertola, a quem a desgraça affrontou. Profundamente consternado, como todos nós estavamos e estamos, por tanta miseria e desgraça, e desejando quanto em minhas forças caiba ver se d’algum modo é possivel minoral-as, vou pedir-lhe um obsequio, e empenhar os sentimentos caritativos de v. ex.ª na realisação d’uma ideia, que deve ser altamente sympathica a todos os que abrigam no coração o santo sentimento da caridade, a de abrir na redacção do Bejense uma subscripção a favor das victimas, que mais soffreram n’aquelles calamitosos dias com a cheia do rio. Muito me obrigará v. ex.ª com mais este favor, para o qual de certo achará v. ex.ª sobeja recompensa na satisfação da sua boa alma, e nas lagrimas de reconhecimento, que hão-de derramar os infelizes, a quem v. ex.ª levar os meios de subsistencia. Esperando este favor, permaneço com a maior consideração—Dev. ex.ª—amg.º certo e crd.º obrg.º—Manuel Ignacio de Mello Garrido.