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O BEJENSE
Jornal de Utilidade e Recreio - Versão Digital
Edição n.º 501
21 notícias

Chegada

Município e administracção localPolítica e administracção do EstadoTransportes e comunicaçõesCaminho de ferroChegadasEstacçõesGoverno civil
Porto · Portugal Caminho de ferro · Governo Civil

Hontem chegou a esta cidade o ex.mo sr. conselheiro Perdigão governador civil do districto do Porto. Na estação do caminho de ferro era sua ex.ª esperado por muitos dos seus amigos. O intelligente magistrado demora-se n’esta cidade até domingo.

Ainda bem

Religião
Igreja

O adro da egreja da Misericordia n’estes ultimos tempos, era o ponto escolhido pelos vadios para dormirem. Presenciavam-se scenas indecorosas n’aquelle local e o digno administrador tratou de acabar com tamanha indecencia. Fez bem. Mil louvores a sua s.ª.

Vandalismo

Geral

Do lavadouro que anda a construir-se ao poço dos Frangãos, arrancaram, na noute de domingo, toda a cantaria que estava assente.

Bancos

Economia e comércioTransportes e comunicaçõesEstradasObras de infraestrutura

Estão a construir-se oito de alvenaria na estrada que circumda a cidade.

Musica

Cultura e espectáculoExército

A do regimento 17 de infanteria tocou no domingo desde as oito horas da noite até ás 10 na praça.

Festividade

Economia e comércioReligiãoCulto e cerimóniasFeirasFestas religiosas

No convento das religiosas de Nossa Senhora da Conceição festejou-se na segunda feira o Evangelista com toda a solemnidade. Na tarde de domingo houve vesperas e na segunda feira missa cantada. O templo está lindamente decorado.

Proclamas

Geral

No dia 21 de julho proclamaram-se nas freguezias da cidade: José da Silva Goinhas Junior, com Albina Rosa, solteiros. José Maria Engana Ruaz, com D. Maria Carlota Palha, solteiros. Francisco João, com Maria Francisca, solteiros. Manoel Viegas, com Maria Augusta, solteiros. Antonio Manoel, com Adelaide Lucia, solteiros.

Preso

Justiça e ordem públicaPrisões
Mértola · Portugal

Um dos indivíduos que, na mina de S. Domingos, apunhalou um trabalhador, como noticiámos, já deu entrada na cadeia de Mertola.

Regresso

Transportes e comunicaçõesCorreio
Beja · Portugal

Já se acha n’esta cidade o nosso distincto amigo e collega, Pedro d’Almeida Soriano, redactor e fundador da Gazeta do correio e actualmente empregado na administração do correio, de Beja e que, ha pouco, fôra á capital tratar dos seus negocios.

Prémio

Coimbra · Portugal Geral

Entre os estudantes premiados na universidade de Coimbra figura o sr. Julio Marques de Vilhena, natural de Ferreira, n’este districto. Teve o primeiro prémio no quarto anno de direito.

Exercício

Acidentes e sinistrosEconomia e comércioExércitoSaúde e higiene públicaSociedade e vida quotidianaFalecimentosFeirasHospitaisIncêndiosTreinos e manobras
Serpa · Portugal Hospital

Na segunda feira o regimento 17 de infanteria teve exercício de fogo. Na occasião em que se deu uma descarga recebeu na cabeça um ferimento, uma mulher natural de Serpa. Foi conduzida ao hospital e falleceu no dia seguinte. Fazendo-se-lhe autopsia foi-lhe encontrada no cerebro uma pedra, que tinha de peso tres grammas.

Espancamento

Geral

Os indivíduos que espancaram o sr. José Antonio Dias, tosaram, junto á Lobeira, um outro indivíduo, cujo nome nos não disseram. São as consequencias da impunidade.

Desordens

ExércitoJustiça e ordem públicaBebedeiras e desordens

No domingo, no fosso junto ao paço episcopal, houve uma grande desordem entre paisanos e soldados do regimento 17 de infanteria. Deu causa a ella o jogo. Ora como elle é permanente n’aquelle local nós pedimos ao digno commandante do regimento 17 que o mande patrulhar e ao sr. administrador que mande para aquelle sitio alguns policias.

Vapôr Gomet

Economia e comércioMeteorologia e fenómenos naturaisPreçosReligiãoTransportes e comunicaçõesFeirasFestas religiosasNavegacçãoPreços e mercados
Mértola · Vila Real · Portugal

Dissemos que durante o tempo de banhos se diminuiriam os preços do vapôr Gomet, que faz a carreira de Mertola a Villa Real de Santo Antonio e fomos exactos na noticia que demos. A empreza dá para as pessoas que forem a banhos a Villa Real bilhetes especiaes de ida e volta validos por quarenta dias. Na ré, ida e volta, custa 1$800 réis cada pessoa; na próa 1$500. As passagens dos menores até 3 annos são gratuitas, de 3 até 10 annos pagam meia passagem. Aos passageiros tanto de ré como de próa lhes é permittido a bagagem, gratuitamente, de um bahu e uma cama, pagando pelas que exceder 80 reis por cada 15 kilos de ida e volta. Os dias d’estas carreiras são os mesmos das carreiras ordinárias; sae de Mertola todas as segundas, quartas e sextas feiras, e de Villa Real todas as terças, quintas e sabbados. As horas da saída variam desde as quatro horas da manhã até ás 3 da tarde.

Expropriação

Município e administracção localEstradas e calçadas
Aljustrel · Portugal

Foi declarada de utilidade publica a occupação temporaria do terreno, pertencente a Alonso Gomes e Companhia, e que se acha dentro dos limites da demarcação da mina de manganez, de que elle é concessionario, a qual está situada na herdade do Monte das Ruas, freguezia e concelho de Aljustrel, n’este districto, a fim de poder dar á lavra o maior desenvolvimento de que necessita.

Economia e comércioEstatísticasTransportes e comunicaçõesAgriculturaCaminho de ferroDiligênciasNavegacçãoPecuária
Caminho de ferro

Conta semanal da receita do caminho de ferro de sueste. Semana finda em 11 de junho de 1870. Designação / Num. / Peso / Importancia. Passageiros: 1.ª classe 40 — 116$670; 2.ª dita 406 — 412$980; 3.ª dita 1:311 — 831$100. Grande velocidade: Bagagens e mercadorias — 30:211 — 103$699; Carruagens e gado — — —; Baldeação e registo — — 19$301; Diversos — — —. Pequena velocidade: Mercadorias — 1004:228 — 2:180$587; Carruagens e gado — — 16$320; Baldeação e registo — — 316$653; Diversos — — 18$860. Barcos a vapor: Passageiros — 2:964 — 281$860; Outros productos e mercadorias — 23:679 — 28$170; Receita eventual — — —; Total 4:326$260. Numero de kilometros abertos á exploração 212. Media por kilometro aberto á exploração, reis 20$407.

EXTERIOR

Educacção e instruçãoEstatísticasExércitoJustiça e ordem públicaMeteorologia e fenómenos naturaisCapturasEscolasNomeaçõesNomeaçõesVandalismo
Paris · Roma · África · Espanha · França · Itália · México · Prússia · Rússia Exterior / internacional · Islâmico

Guerra—Nota enviada pelo governo francez aos seus agentes diplomáticos—Discurso do rei da Prússia—As espingardas de agulha e chassepot—Os generaes francezes—Os generaes prussianos.—Proclamação de Napoleão III. Os generaes francezes (Continuada do numero antecedente) Baraguay d’Hillirs, é marechal e vicepresidente de senado. Nasceu em Paris aos 6 de setembro do 1795 e é filho de um general do mesmo appellido que em outro tempo merecera as boas graças de Napoleão I. Jurara bandeiras quando contava onze annos apenas; em 1812, sendo já alferes, entrou na batalha de Leipzik e alli perdeu a mão esquerda. Seguindo desde essa epoca os postos até o grau de coronel, em 1830 foi para a África, onde servio por algum tempo, até que em 1832 foi nomeado segundo commandante da escola de Saint-Cyr, e em 1836 commandante em chefe da mesma escola. Em 1840 voltou á África, onde esteve mais quatro annos, entrando em varias expedições contra os arabes. Sendo infeliz em um recontro foi passado á disponibilidade, em que o governo o conservou até que lhe confiou outra commissão de serviço activo. Durante as campanhas da Rússia e da Italia distinguiu-se tanto que na primeira tomou a fortaleza de Bomarsund, que lhe valeu o bastão de marechal da França, e na segunda teve a singular honra, para um militar, de ser commandante do corpo de exercito que entrou em Solferino. O marechal Baraguay d’Hilliers, apesar de em 1848 prestar serviços importantes ao governo provisorio, depois de 1852 soube defender o golpe de estado e ganhar a inteira confiança de Napoleão III. Nas assembléas legislativas para onde o levaram os eleitores de Doubs, mostrou sempre inclinação ás ideas retrogradas, que firmou em Roma, quando alli substituiu o general Hautpoul, apresentando-se ostensivamente a favor da authoridade papal. O marechal Baraguay, foi nomeado senador em 1854, e quatro annos antes merecera a gran-cruz da legião de honra. Segundo noticiam as folhas de Paris, antes de partir para a fronteira rhenana, o imperador confiou-lhe o commando do exercito de Paris. N’este ponto, como é facil avaliar, o governo imperial carece de ter um general em quem deposite illimitada confiança. Bazaine, general; gran cruz de Legião de honra. Nasceu nos 13 de fevereiro de 1811, e pertence a uma família mui distincta. Encetou a sua carreira militar em África, onde aos 22 annos tinha ganho o posto de tenente, e o primeiro grau de Legião de honra em uma batalha. Em 1837 veiu á Hespanha na legião estrangeira, onde serviu dois annos, perseguindo os carlistas até a destruição dos mais numerosos bandos que infestavam o reino visinho. Voltando á África em 1839, alli então se conservou alguns annos, entrando em muitos dos feitos militares que povoam as paginas da historia da conquista de Algel, e são mui gloriosas para as armas francezes. Na guerra do Criméa commandou os regimentos estrangeiros, e no cerco de Sebastopol mereceu os elogios dos commandantes em chefe por sua bravura e pela organisação dada á brigada que lhe fôra confiada. Na expedição do México, deram-lhe o commando da primeira divisão de infanteria, mas pela retirada do general Forei, ficou com o commando em chefe da expedição, conseguindo derrotar Juarez até ás fronteiras d’aquelle paiz. Por estes serviços, o governo elevou-o á cathegoria de marechal de França. Na actual campanha contra a Prússia deve estar reservada para o marechal Bazaine uma importante commissão. Trossard, general. Nasceu em 1807. Foi discípulo da escola polytechnica e tem o curso de engenharia militar. Sendo capitão em 1833 e tenente coronel em 1849 fez n’esta epoca parte da expedição do Roma, e alli o encarregaram do cérco da cidade eterna. Voltando d’esta expedição foi nomeado segundo commandante da escola polytechnica. Quasi sempre tem estado empregado em serviço da sua especialidade. Tendo chegado ao posto de general de divisão em 1859, fez parte dos exercitos que foram á Italia, e em virtude d’isso lhe deram o gran de grão-official da Legião de honra. Pelo que dizem os jornaes, o governo do imperador, na actual campanha, já lhe destinou o commando de um corpo dos exercitos que avançam para o Rheno.

EXTERIOR

ExércitoSociedade e vida quotidianaTransportes e comunicaçõesCostumes e hábitosDiligênciasFalecimentosMovimentos de tropasObras de infraestrutura
Alemanha · França · Prússia · Reino Unido Exterior / internacional

Guerra—Os generaes prussianos O general Moltke, o mais illustre dos chefes superiores do exercito prussiano, tem grande reputação como tactico, e justificou essa reputação, dirigindo a batalha de Sadowa, antes da chegada do principe Carlos. Posto que seja entrado em annos, não póde chamar-se velho, e conserva todo o vigor de uma poderosa intelligencia, distinguindo-se principalmente por uma actividade extraordinária. É de caracter affavol, e de costumes tão modestos, que foge de tudo quanto seja fausto e ostentação, a ponto de vestir-se a maior parte das vezes á paisana, para subtrahir-se ás honras militar alli tão apreciadas. Quasi sempre o vêem na sua carruagem, lendo alguma obra séria ou periódicos estrangeiros de todos os paizes, os quaes lhe são familiares, porque sabe perfeitamente sete idiomas. Apesar da sua sciencia, da sua erudição e do seu conhecimento das línguas estrangeiras, falla com muita sobriedade. Assistio aos principaes incidentes da batalha de Sadowa, com uma impassibilidade extraordinária. Dizem geralmente na Allemanha que Moltke estudou tres annos o plano de campanha, para o caso, que desgraçadamente succedeu, de haver guerra entre a Prússia e a França. Príncipe Frederico Carlos é irmão do actual rei. Nasceu aos 29 de junho de 1801, e em 1827 casou com a princeza Maria Luiza Alexandrina, filha do fallecido Carlos Frederico, grão-duque de Saxe Weimar. É homem instruído e considerado no exercito pela experiencia que tem dos negocios da guerra. Gosa de muitas honras e postos militares. Além de ser general e commandante superior da artilheria, tem os títulos de chefe do 12.° regimento de infantaria prussiana, 1.° commandante do 2/batalhão do 2.° regimento de granadeiros da landew.rr da guarda, proprietario do 8/ regimento de couraceiros austriacos, e chefe do 4.° regimento de mosquateiros russos. Príncipe Frederico Guilherme herdeiro presumptivo da coroa, é filho do actual rei da Prússia, e nasceu ao 18 de outubro de 1831. É casado desde 1859, com a princeza Victoria, filha primogénita da rainha de Inglaterra. No exercito prussiano tem o posto de tenente general; alem disso commanda a 1.ª divisão de infantaria da guarda e tem sido inspector da 1.ª divisão do exercito. Depois da declaração da guerra o principe real foi investido no commando do 2.° corpo do exercito. Príncipe Augusto do Wurtemberg, é da casa real de Wurtemberg. Nasceu aos 24 de janeiro de 1812. Ha muitos annos que está ao serviço da Prússia. Tem no exercito prussiano o posto de tenente general e é commandante geral da guarda. Na actual campanha é conservado n’este commando,

EXTERIOR

Economia e comércioExércitoJustiça e ordem públicaMeteorologia e fenómenos naturaisReligiãoSociedade e vida quotidianaAgriculturaConflitos locaisCostumes e hábitosCulto e cerimóniasDenúncias e queixasHomenagensJulgamentosMovimentos de tropas
Berlim · Londres · Nápoles · Paris · Viena · Alemanha · Áustria · Bélgica · Espanha · Europa · França · Grécia · Itália · Prússia · Reino Unido · Rússia Contemporâneo · Exterior / internacional · Interpretacção incerta

Guerra—Proclamação de Napoleão Francezes—Ha na vida dos povos momentos solemnes em que a honra nacional violentamente excitada, se impõe qual força irresistível, domina os interesses e toma a direcção dos destinos da patria. Acaba de soar para a França uma dessas horas decisivas. A Prússia, á qual testemunhamos emquanto durou a guerra do 1866 e depois della, as disposições mais conciliadoras, náo levou em conta a nossa boa vontade sem a nossa longanimidade. Participou-se no caminho das invasões, dispertando com isto desconfianças, fazendo necessários em toda a parte armamentos exagerados, e transformando a Europa em campo onde reinam a incerteza e os receios pelo dia de amanhã. Veio revelar a instabilidade das relações internacionaes um incidente recente e mostrar toda a gravidade da situação. Em presença das novas pretenções da Prússia, fizemos ouvir as nossas reclamações. Foram porém illudidas e seguidas de certo procedimento desdenhoso. Irritou-se profundamente o paiz, e de uma extremidade a outra da França resoou um grito de guerra. Só nos resta confiar á sorte das armas os nossos destinos. A guerra não é á Allemanha, cuja independencia respeitamos. Fazemos votos por que os povos que compõe a grande nacionalidade germanica disponham livremente de seus destinos. Pela nossa parte, reclamamos o estabelecimento de um estado de cousas que garanta a nossa segurança e assegure o nosso futuro. Queremos conquistar paz duradoura, fundamentada nos verdadeiros interesses dos povos, e fazer cessar este estado precario em que todas as nações empregam os seus recursos para se armar umas contra as outras. É ainda a mesma que levou através da Europa as idéas civilisadoras da nossa grande revolução, a gloriosa bandeira que desfraldamos hoje perante aquelles que nos provocam. Representa os mesmos princípios; ha de inspirar as mesmas dedicações. Francezes—Vou pôr-me á testa do nosso valente exercito que é animado pelo amor do dever e da patria. Elle bem sabe o que vale, porque viu nas quatro partes do mundo a victoria sempre atraz dos seus passos. Levo meu filho comigo, não obstante ser tão moço ainda. Elle sabe quaes são os deveres que lhe impõe o seu nome, e tem orgulho em tornar parte também nos perigos daquelles que combatem pela patria. Que Deus abençoe os nossos esforços! Os grandes povos quando defendem causas justas são invencíveis. Napoleão. Paris, 21 de julho de 1870. Sr.,...—Conhece de certo o encadeamento dos factos que nos levaram a um rompimento com a Prússia. A communicação que o governo do imperador levou á tribuna dos corpos do estado e de que eu já enviei uma copia, expoz á França e á Europa as rapidas peripécias de uma negociação em que, á medida que duplicavamos os esforços para conservar a paz, se descobriam os secretos desígnios de um adversário resolvido a tornal-a impossível. Ou porque o gabinete de Berlim julgasse que a guerra era necessária para a realisação dos projectos que ella preparava havia muito tempo contra a autonomia dos estados allemães, ou porque, pouco satisfeito de ter estabelecido no centro da Europa um poder militar que se tornou temível para todos os visinhos, quizesse desenvolver a força adquirida para deslocar definitivamente em proprio proveito o equilibrio internacional, a intenção premeditada de recusar-nos as garantias indispensáveis á nossa segurança como á nossa honra, mostra-se em toda a evidencia no seu procedimento. Eis qual foi, sem duvida, o plano combinado contra nós. Um accordo preparado mysteriosamente por intermediários não conhecidos devia, se a luz não brilhasse a tempo, levar as cousas até ponto em que a candidatura de um prussiano á corôa de Hespanha fosse subitamente revelada ás côrtes reunidas. Um voto alcançado por surpreza, antes que o povo hespanhol tivesse tempo de reflectir, proclamaria, quando menos se esperasse, o principe Leopoldo de Hohenzollern herdeiro do sceptro de Carlos V. Assim, a Europa achava-se em presença de um facto consumado; e, especulando com a nossa deferencia para o grande principio da soberania popular, contiva-se que a França, apesar de um desgosto passageiro, suspenderia qualquer acção ante a vontade ostensivamente expressada de uma nação que ha sabido merecer as nossas sympathias. Desde que conheceu o perigo, o governo do imperador não hesitou em denuncial-o aos representantes do paiz como a todos os gabinetes estrangeiros: contra este manejo a opinião publica tornava-se o seu mais legitimo auxiliar. Os espíritos imparciaes não se illudiram ácerca da verdadeira situação das cousas; comprehendeu-se para logo que se estando profundamente desgostosos de ver que a Hespanha traçava, no interesse exclusivo de uma dynastia ambiciosa, um papel tão pouco feito para a lealdade d’este povo cavalheiroso, tão pouco em harmonia com os instinctos e as tradições de amisade que o ligam a nós, não podíamos ter o pensamento de desmentir o nosso constante respeito para a independencia das suas resoluções nacionaes. Avaliou-se que só a política pouco escrupulosa do governo prussiano entrava em acção. Era este governo, com effeito, que, não se julgando ligado pelo direito commum e desprezando as regras ás quaes as maiores potências tem tido a prudencia de submetterem-se, tentou impôr á Europa illudida uma preponderância tão perigosa da sua influencia. A França tomou a si a causa do equilibrio, isto é, a causa de todos os povos ameaçados como ella pelo engrandecimento desproporcionado de uma casa real; e procedendo assim, collocar-se-hia ella, como tem querido faze-lo acreditar, em contradição com as suas próprias maximas? Seguramente, não. Qualquer nação, desejamos proclamal-o, é senhora dos seus destinos. Este principio, altamente affirmado pela França, tornou-se uma das leis fundamentaes da política moderna. Mas o direito de cada povo, como de todo indivíduo, é limitado pelo direito de outrem, e é prohibido a uma nação, sob pretexto de exercer a sua própria soberania, ameaçar a existencia ou a segurança de um povo visinho. Foi n’este sentido que um dos nossos grandes oradores, o sr. Lamartine, dizia em 1847 que, quando se tratava da escolha de um soberano, qualquer governo não tinha nunca o direito de pretender e tinha sempre o direito de excluir. Tal doutrina foi aceita por todos os gabinetes em circumstancias analogas áquellas em que nos collocou a candidatura do principe de Hohenzollern, principalmente em 1831 na questão belga, e 1830 e em 1862 na questão hellenica. Nos negocios belgas, foi a voz da Europa que se ouviu, porque foram as cinco grandes potências que os decidiram. As tres côrtes, que tomaram a peito a causa do povo hellenico inspirando-se de um pensamento de interesse geral, tinham já combinado previamente não aceitar o throno da Grécia para um principe da sua família. Os gabinetes de Paris, Londres, Viena, Berlim e S. Petersburgo, representados na conferencia de Londres, seguiram este exemplo; assentaram que seria essa a regra de proceder para todos em uma negociação em que estava empenhada a paz do mundo e prestaram assim uma solemne homenagem á grande lei da ponderação das forças, que é a base do systema político europeu. Debalde o congresso nacional da Belgica persistiu, não obstante esta resolução, em eleger o duque de Nemours. A França sujeitou-se á obrigação que tinha contrahida e recusou a corôa que os deputados belgas trouxeram a Paris; mas preservou-se a necessidade de fazer também, excluindo a candidatura do duque de Leuchtenberg, o que se oppozesse a d’um principe francez. Na Grécia, quando se deu a ultima vacatura do throno, o governo do imperador combatia ao mesmo tempo a candidatura do principe Alfredo de Inglaterra e a de outro duque de Leuchtenberg. A Inglaterra, reconhecendo a authoridade das considerações invocadas por nós, declarou em Athenas que a rainha não authorisava seu filho a aceitar a corôa da Grecia. A Rússia fez uma declaração semelhante pelo duque de Leuchtenberg, posto que em razão do seu nascimento, este principe não devesse ser absolutamente considerado por ella como membro da família imperial. Emfim, o imperador Napoleão applicou espontaneamente os mesmos princípios em uma nota inserta no «Moniteur» de 1 de setembro de 1860, para rejeitar a candidatura de principe Murat ao throno de Napoles. A Prússia, a quem não deixámos de recordar taes antecedentes, pareceu por um momento que cedia ás nossas justas reclamações. O principe Leopoldo desistira da sua candidatura; e todos podiam alegrar-se porque a paz não seria perturbada. Mas esta esperança deu em breve logar a novas apprehensões, porque havia a certeza de que a Prússia, em retirar seriamente nenhuma das suas pretenções, procurava sómente ganhar tempo. A linguagem a principio vacillante, depois decidida e altiva do chefe da casa de Hohenzollern, sua recusa em empenhar-se para manter no dia seguinte a renuncia da vespera, o procedimento havido para com o nosso embaixador, ao qual uma mensagem verbal interdisse toda a communicação nova para o objecto da sua missão de conciliação, emfim a publicidade dada a este procedimento insolito pelos jornaes prussianos e pela notificação que se fez ao gabinete; todos estes symptomas successivos de intenções aggressivas fizeram cessar a duvida nos espíritos mais precavidos. Seria permittida a illusão quando um soberano, que commanda um milhão de soldados, declara, com a mão no copo da espada que se retira para se aconselhar comsigo proprio e conforme as circumstancias? Chegáramos ao limite extremo em que uma nação que sente o que deve a si não transige com as exigências da sua honra. Se os ultimos incidentes d’esta penosa discussão não lançavam viva luz sobre os projectos alimentados pelo gabinete de Berlim, ha uma circumstancia, menos conhecida até hoje, que dá ao seu proceder uma significação decisiva. A idéa de elevar ao throno de Hespanha um principe de Hohenzollern não era nova. Já no mez de março de 1869 fôra indicada por elle no nosso embaixador em Berlim, que fôra logo convidado para communicar ao conde de Bismark como o governo do imperador consideraria semelhante neutralidade. O sr. conde de Benedetti, em diversas conversações, que tivera acérca d’este assumpto, assim com o chanceller da confederação da Allemanha do Norte, como com o subsecretario de estado, encarregado da direcção dos negocios estrangeiros, não deixou elle ignorar que não poderiamos approvar que um principe prussiano viesse reinar alem dos Pyreneus. O conde de Bismark, por seu lado, declaràra que não devíamos por modo algum preocupar-nos com uma combinação que elle proprio julgava irrealisavel; e na ausencia do chanceller federal, em um momento em que o sr. Benedetti julgou dever mostrar-se incredulo e illucido, o sr. Thiele empenhou a sua palavra de honra de que o principe de Hohenzollern não era nem podia ser um candidato serio para a corôa de Hespanha. Se se devesse suspeitar da sinceridade de affirmativas officiaes tão positivas, as communicações diplomáticas deixariam de ser um penhor da paz europea: seriam apenas uma cilada ou um perigo. Assim que o nosso embaixador transmitio estas declarações sob todas as reservas, o governo do imperador julgou conveniente recebêl-as favoravelmente. Recusira-se a duvidar da boa fé com que se haviam feito, até o dia em que se revelou subitamente a combinação que era a u’a mais flagrante negação. Reconsiderando inopinadamente a palavra que nos dera, sem mesmo tentar nenhuma negociação para se empenhar para comnosco, a Prússia nos endereça um verdadeiro desafio. Sabendo, desde então, o valor que podiam ter os mais formaes protestos dos homens de estado prussianos, tínhamos o imperioso dever de preservar, no futuro, a nossa lealdade contra novos enganos por meio de um penhor explicito. Devíamos portanto insistir, como o fizemos, para obter a certeza de uma renuncia que se se apresentasse apenas cercada de distincções subtis era, d’esta vez, definitiva e séria. É justo que a corte de Berlim tinha perante a historia a responsabilidade d’esta guerra, que tinha os meios de evitar e que ella quiz. E em que circunstancias foi procurar a lucta? Foi quando, ao cabo de quatro annos, a França lhe estava dando o testemunho de constante moderação e se abstinha, por um escrupulo, em um momento tão delicado, e portanto sobresaé em todos os actos dum governo que já pensava em transgredil-os no momento em que os assignava. A Europa foi testemunha do nosso procedimento e póde comparal-o com o da Prússia durante o curso d’este periodo. Que ella se pronuncie hoje sobre a justiça da nossa causa. Qualquer que deva ser a sorte dos trabalhos, aguardamos sem inquietação o juízo dos nossos contemporâneos como o da posteridade. Aceite, etc. (Assignado) Gramont.

EXTERIOR

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Alemanha · Espanha · Europa · França Exterior / internacional

Guerra—No dia 19 verificou-se a abertura do reichstag da confederação da Allemanha do Norte. O rei Guilherme proferio o seguinte discurso: «Honrados membros do reichstag da confederação da Allemanha do Norte.—No dia em que, por occasião da vossa ultima reunião, desejei a vossa chegada em nome dos governos confederados, pude, com uma gratidão misturada de alegria, testemunhar que, com o auxilio de Deus, os nossos esforços tinham sido coroados de bom exito, porque tivemos sempre em vista corresponder aos votos dos povos e ás necessidades da civilisação, obstando assim a qualquer perturbação da paz. Se as ameaças de guerra e um perigo de guerra, impôz aos governos confederados o dever de convocar-vos para uma sessão extraordinária, em vós como em nós existirá sempre viva a convicção de que a confederação da Allemanha do Norte se applicou a utilisar a força popular da Allemanha, não para pôr em risco a paz geral mas para lhe dar um auxilio poderoso; e que se, actualmente appellamos para esta força popular, afim de proteger a nossa independencia, obedecemos tão sómente á voz da honra e do dever. A candidatura de um principe allemão ao throno de Hespanha, candidatura que em todas as circumstancias foi inteiramente estranha aos governos confederados, e que, para a confederação da Allemanha do Norte, não tinha outro interesse senão o de ver que o governo de uma nação amiga ligava a ella a esperança de poder servir para uma paz ha muito agitada de penhor a um governo regular e pacifico—essa candidatura deu ao governo do imperador dos francezes o pretexto de estabelecer um caso de guerra por um modo havia muito desconhecido nos usos diplomáticos, e, depois da desapparição do pretexto, de sustentar esse caso de guerra como desprezo do direito que tem os povos aos beneficios da paz, e de que a historia dos soberanos anteriores da França, offerece exemplos analogos. Se em séculos passados, a Allemanha supportou silencioso essas offensas ao seu direito e á sua honra, mas não as supportou certamente senão porque, na sua decadência e desunião, não tinha a consciencia da sua força. Hoje que o laço de uma união moral e legal, laço que as guerras da independencia começaram a fundar, liga em uma só família, como uma harmonia tanto mais intima, quanto fôr mais duradoira, os membros da família allemã; hoje que os armamentos da Allemanha não deixaram porta aberta ao inimigo, a Allemanha tem em si propria a vontade e a força de se defender contra as novas violências da França. Não é o orgulho que me dicta estas palavras. Os governos confederados, assim como eu, procedem com a intima convicção de que a victoria e a derrota estão no poder do Deus das batalhas. Temos, com olhar sereno e claro, medido a responsabilidade que, perante o juízo de Deus e dos homens, cabe ao que impelle para as guerras devastadoras dois grandes e pacificos povos, que habitam no proprio coração da Allemanha. O povo allemão e o povo francez, estes dois povos que gosam no mesmo grau os beneficios da civilisação christã e de uma prosperidade crescente, e que aspiram a esses beneficios, são chamados a uma lucta mais salutar que a lucta sanguinolenta das armas; porem os homens que governam a França teem sabido, por uma política refalsada, explorar em proveito de seus interesses e de suas paixões pessoas, o amor proprio legitimo, mas irritável, do grande povo nosso visinho. Mas se os governos confederados tem a consciencia de terem feito tudo o que a sua honra e a sua dignidade lhes permittiam fazer para conservar na Europa os beneficios da paz, é evidente aos olhos de todos, que se desembainhamos a espada é porque temos grandissima confiança em que apoiando-nos na vontade unanime dos governos allemães do Sul como do governo do Norte, nos dirigimos ao patriotismo e á dedicação do povo allemão, para o convidar á defensa da sua honra e da sua independencia. Seguindo a exemplo de nossos paes, combateremos pela nossa liberdade e pelo nosso direito, contra a violência de um conquistador estrangeiro, e, n’esta lucta em que proseguiremos sem outro intuito senão o de assegurar á Europa uma paz duradoura, Deus será comnosco assim como foi com os nossos paes.»

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Interpretacção incerta

Guerra—A Chassepot é uma espingarda leve, de pequeno calibre; de facil manejo e que tem todo o peso na culatra. A espingarda prussiana é tão pesada como as antigas; o cano faz pressão sobre a mão do soldado, obrigando-o facilmente a perder a pontaria: maneja-se com difficuldade e nas fileiras póde ser causa de desastres. A bala da Chassepot produz uma ferida tão grande como a occasionada por um projectil de grosso calibre, e, segundo as experiencias feitas em cavallos, causa tantos estragos na carne como a bala prussiana, que exige muita carga. A bala de Chassepot percorre uma distancia de 420 metros por segundo e a espingarda de agulha 220 metros em egual tempo: a ultima não dá senão resultados negativos a 500 metros: a primeira alcança o alvo a 1:000 metros de distancia. Outro dos inconvenientes, e talvez o maior, que tem a espingarda de agulha, é que, como se carrega e se dispara com tanta rapidez, o soldado precisa de ir muito carregado de munições, ou recebel-as muito a miudo, duas cousas que não são muito fáceis.