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O BEJENSE
Jornal de Utilidade e Recreio - Versão Digital
Edição n.º 87
11 notícias

Carta dirigida a Deus

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Paris · Porto · França · Portugal Correspondência · Exterior / internacional · Igreja · Interpretacção incerta

Um jornal do Porto insere a seguinte carta extrahida de um periódico de Paris: N’uma d’essas estreitas ruas contíguas ao mercado de Santo Honorato, e no ultimo andar de uma casa antiguíssima, vive uma família de operários, a qual acaba de ser assaltada por uma d’essas desgraças que fazem estremecer. A esposa, moça ainda, estava doente de cama ha muito tempo, e o marido, unico sustentáculo da sua família, deu uma terrível queda que o impediu de trabalhar e de sahir de casa. Vossa situação o que haviam de fazer? Como alimentar-se aquella pobre gente? Entre os cinco filhos da família ha uma menina loura, de olhos azues, muito desembaraçada e que todos os dias vae receber lições a uma escola gratuita. No dia em que mais afflictos estavam ficou em casa para acudir quanto possível a seus paes doentes. A desgraça succedida a seu pae causava-lhe summa pena, porque a fome que os perseguia mostrava-lhe toda a extensão da desgraça. Assim pois inspirou-lhe a innocencia um meio de sahir das difficuldades. —Quando estamos attribulados devemos dirigir-nos a Deus, diz-nos a mestra frequentemente. Pois bem, vou dirigir-me a Deus. Vou escrever-lhe uma carta como as que a mamã me faz escrever para a madrinha, pois ainda tenho um bocado de papel. Dito e feito. E em quanto seu pae e sua mãe dormiam o pesado somno da febre, escreveu mal ou bem uma carta cheia de borrões, na qual pedia a Deus saude para seus paes e um pouco de pão para si e para seus irmãos. Em seguida sahiu de casa, correu á egreja do S. Roque e tractou de deitar na caixa das esmolas o seu lacónico bilhete, buscando occultar das pessoas que a vissem esta acção. Uma respeitável senhora que ia a sahir da egreja, observou que a menina andava em torno da caixa das esmolas, e no momento em que lh’estendia o braço disse: —Que fazes menina? A innocente, cheia de terror, começou a chorar, e como a senhora continuasse interrogando-a referiu-lhe ingenuamente o caso. Enternecida a boa senhora consolou a menina e tomando a carta disse-lhe: —Eu me encarrego de a fazer chegar ao seu destino. E acrescentou: —Escreves-te aqui os signaes da tua casa? —Não senhora, teem-me dito que Deus sabe tudo. —É verdade minha filha, mas talvez quem se encarregue de responder não saiba tanto. A menina lhe disse então aonde viviam seus paes, e cheia de alegria voltou á sua pobre casa. No dia seguinte ao levantar-se encontrou, diante da porta, um cesto immenso cheio de fato, de homem e de mulher, roupa de cama, legumes, pão, carne e dinheiro, tudo perfeitamente cosido. Pegado ao cesto havia um papel em que se liam estas palavras: —Resposta de Deus. Poucas horas depois apresentou-se um medico encarregado de visitar os dois enfermos. Vupõe-se, pois, se a carta da menina loura havia ou cabido directamente ao ceu, ou pelo menos sido recebida por um dos seus anjos. É pena que o numero destes não seja maior. Isto prova o que vale a esperança. Não a abandoneis nunca.

Grande illuminação em Beja

Acidentes e sinistrosCultura e espectáculoMeteorologia e fenómenos naturaisTransportes e comunicaçõesCorreioIncêndios
Beja · Évora · Portugal

Na tarde do dia 21 do corrente por occasião da chegada do correio, observou-se n’esta cidade o fenomeno mais curioso de que temos noticia. Das 4 para as 5 horas da tarde d’esse dia, começou a notar-se que uma grande torrente de luz se espalhava por toda a cidade, a ponto de quasi fazer perder o brilho ao sol. Os habitantes estranhando o espectaculo corriam para as ruas a fim de conhecer a causa do phenomeno, mas ao querer transpor as portas de suas moradas paravam batendo com as mãos na cabeça — é que a cada porta estava postado um pharol de luz a deslumbrar os olhos com os fulgores que irradiava. O começo do apparecimento do phenomeno coincidiu com a abertura da mala do correio d’Evora porque para tudo ser surprehendente e sobrenatural, a mala do correio é que foi escolhida para acondicionar aquella grande porção de luz. Passado algum tempo, foram recolhidos em casa dos moradores, que se apressavam a apaga-los com o receio dos perigos do incêndio e do mau cheiro do morrão. Beja voltou então ás suas condições normaes quando na noite teve de contentar-se com a escassa luz de seus candieiros.

Diamante monstruoso

Transportes e comunicaçõesCorreio
Interpretacção incerta

Segundo diz o Correio Mercantil do Rio de Janeiro appareceu ha pouco proximo á cidade de Caldas um diamante monstruoso com o peso extraordinário de 30 oitavas; é quatro vezes maior do que a Estrella do Sul que pesava 7 oitavas e tanto. Os proprietários do novo diamante pozeram-lhe o nome de Pedro Segundo.

Consorcio real

Sociedade e vida quotidianaCasamentos
Lisboa · Loulé · Paris · França · Portugal Exterior / internacional · Interpretacção incerta

O nosso embaixador em Paris encommendou por ordem de el-rei o sr. D. Luiz ao sr. Krieger, um dos mais notáveis fabricantes parisienses, o leito nupcial para o casamento do nosso monarcha. Parece que o custo andará por 10:000 francos, ou seja proximamente 2:000$000 reis. É o príncipe de Carignan quem acompanhará a Lisboa a princeza D. Maria Pia por parte de el-rei seu pae. Affirmam alguns periódicos que o encarregado de a ir buscar a Turin é o sr. marquez de Loulé. A augusta princeza, segundo se diz, era desde muito affeiçoada a Portugal por delle ouvir fallar lisongueiramente; e possue um album com algumas paizagens deste reino que tem em muita estimação.

Direcção das obras publicas deste districto

Beja · Estremoz · Évora · Portugal Geral

Acha-se nomeado novo director ficando desannexada da direcção do districto de Evora. Achamos de muita conveniência esta resolução, porque apezar do muito zelo e actividade do sr. Manoel Vicente Graça que dirigia as obras publicas dos dois districtos, não era possível examinar os trabalhos do districto de Beja tantas vezes quantas fosse mister, residindo em Estremoz.

Estrada de Beja a Mertola

Economia e comércioTransportes e comunicaçõesAgriculturaEstradasObras de infraestrutura
Beja · Mértola · Portugal

Consta-nos que se vão augmentar em maior escala os trabalhos nesta estrada. No lanço da Boa-vista para esta cidade trabalham 200 homens. É da maior conveniência facilitar emprego aos braços desoccupados, que não acham trabalho nas lavouras, e que affluem ás herdades pedindo pão, quasi á força. Os particulares por si só não podem remediar uma crise tão grave, como aquella que se apresenta na província, pela carestia das subsistências, e por falta de trabalho, que os lavradores não podem fornecer por lhes escassearem os meios.

Ponte de Terces

Acidentes e sinistrosArqueologia e patrimónioTransportes e comunicaçõesDesabamentosObras de infraestruturaPontesRuínas e monumentos
Interpretacção incerta

Estão-se procedendo aos reparos do pegão em que tinha havido ruina no principio do inverno passado. Felizmente são decorridos mais de nove mezes depois que appareceu a ruina no dito pegão, e a ponte continua a apresentar todas as condições de solidez, como julgaram os peritos que por ordem do governo lhe fizeram uma vistoria, pouco depois d’aquelle acontecimento. Folgamos com isto não só por se não perder uma avultada quantia despendida n’aquella obra importantíssima, mas para não dar o gosto aos espíritos malévolos que pintavam a ponte a desabar.

Atraveessadores

Economia e comércioMunicípio e administracção local

Consta-nos que se dá frequentes vezes o facto dos atravessadores comprarem na praça fructa e hortaliças logo pela manhã, não achando depois o povo estes generos senão nas vendas. É um abuso previsto nas posturas, que se deve fazer cessar.

Talho e pescadaria

Economia e comércioPreçosPreços e mercados

Chamamos a attenção de quem compete para estes dois estabelecimentos. No talho só é bem servido quem se entende com o talhante, ou alguma auctoridade a quem se quer fazer a boca doce. Na pescadaria ha uns vendedores officiosos e illegaes que burlam os donos do peixe, o que sem duvida occasiona o preço mais elevado porque se compra aqui em relação ás terras circumvisinhas.

Caminho de ferro do sul

Economia e comércioEstatísticasExércitoTransportes e comunicaçõesCaminho de ferro
Caminho de ferro

A receita geral da exploração deste caminho na semana que decorreu de 21 a 28 de julho, elevou-se á somma de reis 1:866$630. Percorreram a via durante esse praso: Passageiros ordinários 2,053; Militares 63; Total 3,116.

Economia e comércioPreçosAgriculturaPreços e mercados
Beja · Portugal

Preços por que correm os generos em Beja: Trigo, alqueire, 800 reis; Cevada branca, 400; Farinha, 850; Sal, 160; Feijão, 800; Aguardente, almude, 2:400; Vinho, 1:400; Azeite, 3:600; Vinagre, 1:000; Batata, 1 kil., 40.