O BEJENSE

JORNAL DE UTILIDADE E RECREIO

Edição n.º 4Beja, 24 de Abril de 18608 notícias

Ferimento

No domingo, 15 do corrente, ao anoitecer, foi ferido, com uma facada no ventre, um soldado do batalhão de caçadores 8, estacionado n’esta cidade. O ferimento foi gravíssimo, e o infeliz succumbiu ás consequências d’elle na tarde do dia 20, apesar dos incessantes cuidados, ministrados pelo habil facultativo do corpo, o sr. Ribeiro. Este acontecimento desastroso veio encher de consternação toda uma cidade, que está costumada a ver reinar dentro de seus muros a mais perfeita tranquilidade. O povo de Beja tem conservado, sempre, as mais admiráveis relações, com as differentes forças militares, que aqui tem vindo estacionar-se, e esperamos que este facto de modo algum as virá alterar. Os resultados de uma pendencia, passada entre dois indivíduos não podem nunca reflectir-se sobre as classes a que elles pertencem. O soldado é filho do povo: se o brioso batalhão de caçadores 8 chora hoje a morte de um seu camarada, o povo de Beja lamenta a morte de um seu irmão. Factos d’esta ordem compungem todos, mas não ferem a dignidade de ninguém; a offendida n’este caso é a lei, e a iniciativa da desafronta incumbe á auctoridade e só a ella. As auctoridades administrativas tornam-se credoras dos nossos mais subidos louvores pela actividade e zelo com que tem diligenciado a captura dos criminosos. O sr. Neves, que exerce hoje as funcções de Governador Civil, e o sr. José de Moraes, administrador do concelho interino, em consequência do mau estado de saude do sr. Castro, conseguiram a prisão de dois indivíduos, que se suppõe serem os principaes autores do crime. Entendemos que n’este empenho das auctoridades, e no facto da captura está posta a mais airosa satisfação que pela parte que houvesse de julgar-se offendida.

Beja · Portugal Governo Civil

Cão heroico

No brigue portuguez Alerta chegado no dia 11 ao Porto da sua viagem de Havre a Figueirace veio um cão que goza das honras de comer na mesma bandeija que os marinheiros. Eis o motivo. Ainda o navio estava ancorado no porto francez quando cahiu ao rio um marinheiro. Era grande o perigo que o desventurado corria porque a queda atordoara-o e era-lhe impossível o nadar. Eis que de repente um cão que se achava na praça salta ao rio e filia o marinheiro pela gola da jaqueta. Os outros marinheiros secundam o cão nos seus esforços e dentro em poucos minutos o homem está salvo. Os marinheiros para darem uma prova de estima ao cão que acabava de salvar uma vida, decidiram unanimemente que o cão fosse recolhido a bordo e que comeria á mesma mesa que elles. Eis como estes rudes homens remuneraram o heroico cão. (Opinião)

Porto · Portugal

Pedimos desculpa

Por falta de tempo não damos publicidade hoje a uma poesia, que o sr. Antonio José Pereira fez favor de remetter-nos, bem como a uma carta do sr. J. S. Fonseca Junior, que a acompanha, o que faremos no seguinte numero.

Correspondência

Nova via ferrea

Acha-se concluído o novo ramal de via férrea, que vai das Vendas Novas a Setúbal. Domingo 15 teve lugar sobre aquella linha uma viagem de experiencia, que deu em resultado o conhecer-se que a via satisfez a todas as condições de segurança e de commodidade. Compunham a comitiva S.S. Ex.ª os ministros do Reino e obras publicas, muitos dignos Pares, Engenheiros, jornalistas, vários funccionarios públicos etc. etc.

Setúbal · Vendas Novas · Portugal

Cholera morbus

Asseveram differentes jornaes que Tetuan foi invadido pela cholera, que já tem feito n’aquelles sitios bastantes estragos. Depois dos flagellos, trazidos pela guerra, a presença d’uma epidemia tão devastadora deve ter produzido n’aquellas regiões a mais desoladora consternação.

Será verdade!

Tem-se espalhado n’estes últimos dias a noticia de que uma esquadra Ingleza composta de 18 náus, sahirá da Plymouth em direcção ao porto de Lisboa. Este boato faz parte da ordem do dia da capital, e dá campo a vários e diversos commentarios.

Lisboa · Porto · Portugal

Nova cidade

A Villa de Setúbal foi elevada á cathegoria de cidade, por decreto de 19 do corrente. Felicitamos os setubalenses pela honrosa graça que acaba de lhes ser concedida, e que tanto abrilhanta a formosa e importante terra que habitam.

Setúbal · Portugal

Execução de Ortega

Por uma participação telegraphica passada de Terragona para Madrid se soube que no dia 17, ás 7 horas da tarde entrava no Oratorio D. Jaime Ortega. A esta hora rega o solo de Hespanha o sangue de mais um bravo militar. Foi de bilde que o filho do Valente General veio depór aos pés da Rainha de Hespanha uma supplica de perdão para seu pae! A viuvez, as lagrimas, a orphandade, os serviços á Patria não poderam abrandar o sentimento de vingança, que só podia saciar-se com o sangue do bravo General, que havia arriscado a vida em cem batalhas. Não é facil levar a crueldade ao ponto em que foi levada pelos inimigos de Ortega. O filho do General, tenente de caçadores em África, era, como todos os militares portuguezes, um bravo. Tinha recebido, como elles, a cruz de S. Fernando; e veio, com a simplicidade e nobreza do soldado, depôr aos pés da Rainha as duas cruzes e pedir em troca a vida de seu pae. Era um espectaculo para abrandar qualquer coração. Mas o governo de Hespanha é implacavel. O perdão não se concedeu. O General foi executado. (Segue a carta do filho pedindo a vida do pae, oferecendo as suas condecorações e serviços em África.)

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