Edição n.º 274•Beja, 24 de Março de 1866•28 notícias
Senhor dos Passos
Sahio na noute de sabbado, como havíamos dito, da igreja de Santo Amaro para a parochial de S. Thiago, a venerável imagem do Senhor Jesus dos Passos da Graça, acompanhada pela irmandade e pela excellente banda do regimento 17 d’infanteria. A grande chuva que cahiu em todo o dia de domingo, obstou á sahida da procissão, a qual teve lugar na tarde de hoje.
Igreja
Festividade e procissão
Festejou-se hoje na sé e na egreja do Carmo, a linda imagem de Nossa Senhora das Dores. Pelas oito horas da noute, como é costume, sahio a procissão, que ia bella. O préstito era formado pelas irmandades das Dores, Nossa Senhora d’ao Pé da Cruz, Passos da Graça, ordem 3.ª do Carmo e fechava-o uma força do regimento n.º 17 de infantaria com a sua banda.
Igreja
Promoção
Foi promovido ao posto de coronel de engenheiros, o nosso amigo tenente coronel, o sr. Carlos de Barcellos Machado. Damos os parabéns a s. ex.ª
Islâmico
Consequencias do temporal
Estivemos durante quinze dias soffrendo um terrível temporal, e os prejuízos que causou não foram pequenos. Na sexta feira da semana passada, houve, pela volta das 3 para as 4 horas da tarde, no sitio dos Daruaes, Carrasco, Fonte do Mouro etc. etc. um furacão que em olivaes e vinhas fez estragos consideráveis. No sabbado na linha ferrea, em construcção, desta cidade para Serpa, abateu a ponte da Mongeralda em consequencia da grande enchente da ribeira de Cardeira. As searas, em terras baixas principalmente, teem soffrido bastante. Na segunda feira pela manhã, houve uma forte trovoada, acompanhada de grande chuva de pedra, cahindo algumas faiscas electricas que não causaram damno. A entrada de Baleizão está intransitável. O Guadiana leva grande enchente, chegando a cobrir os moinhos. Casas e vallados tem cahido alguns. N’um barranco, junto á estrada da Salvada ha morrido affogado um homem e pereceu uma criança.
Baleizão · Salvada · Serpa · Portugal Islâmico
Ainda a epidemia
Regressaram, na sexta feira passada, dos concelhos de Serpa e Moura, onde tinham ido observar a epidemia que grassa no gado suino, o intendente de pecuaria deste districto o sr. Gagliardini, e o de Evora o sr. Sousa. Como a epidemia apparecesse tambem no districto de Portalegre, partiram para lá, por ordem superior, para a estudarem, os mesmos intendentes.
É calculada em 6 contos de reis a perda do gado cavallar d’este districto, no anno de 1865.
Descobridor de mina
Por decreto de 9 do corrente mez foi declarado, para todos os effeitos, descobridor legal da mina de manganez, sita no serro de S. Pedro de Cabeças, concelho de Castro Verde, n’este districto, o sr. Francisco Guijarrm.
Castro Verde · Portugal
Mais
Tambem por decreto d’este mez, foi concedida por tempo illimitado á sociedade Loncher & Sobrinhos, a mina de ferro do serro do Rosalgar, freguezia de Cercal, concelho d’Odemira, n’este districto.
Cercal · Odemira · Portugal
Pedido
Pede-se á ex.ma camara municipal do concelho da Cuba, se digne despachar o requerimento feito pelos caixeiros residentes n’aquella villa, com data de 5 de janeiro proximo passado e apresentado em sessão de 7 do dito mez.
Cuba · Portugal Câmara Municipal
Funccionado
Eis as condições com que o governo approvou o novo projecto de lavra na mina de S. Domingos: 1.º Não abandonar a empreza os massiços de minério para sustentar entulhos; 2.º Que os entulhos sejam de boa qualidade; 3.º Que a execução das differentes partes do projecto fica sujeita ás prescripções que forem impostas pelo governo ou pelos seus agentes technicos em tudo que possa respeitar á segurança dos trabalhos, dos indivíduos e á necessária observância das regras d’arte.
Geral
Concessão de mina
Foi concedida á sociedade commercial Freitas & Drangoville, por tempo illimitado, a propriedade da mina de manganez, sita na herdade das Alpurchinhas, freguezia e concelho d’Ourique n’este districto, ficando a sociedade obrigada a diversas prescripções.
Ourique · Portugal
Fora com ella
O Avenir acaba de publicar alguns dados mui curiosos ácerca do estado actual da companhia de Jesus. Os jesuítas contam hoje vinte e uma das que elles chamam províncias. Tres d’estas, as da Sicília, do Piemonte e do reino de Nápoles estão totalmente dispersas; outras duas, as dos Estados da Egreja e do reino Lombardo-Veneziano estão-se reorganisando. A companhia tem collegios e residências em todas as partes do mundo, e as vinte e uma províncias se concentram em cinco localidades, das quaes a Italia conta 1:610 membros; a Allemanha, incluindo a Bélgica e a Hollanda, 2:044; a França, incluindo as colonias, 2:561; a Hespanha que inclue a America e uma parte da Asia, 1:067; e a Inglaterra, que inclue a America do Norte, 873. A totalidade religiosa da companhia de Jesus é portanto de 7:955 ropetas, tendo triplicado o numero d’ellas desde 1834 para cá.
Nápoles · Alemanha · América · Bélgica · Espanha · França · Itália · Países Baixos · Reino Unido Exterior / internacional · Igreja
Era esperta
Chorava uma viuva amargamente a morte de seu marido; parecia nada haver que podesse dar-lhe allivio: uma creada com ar de compadecida lhe diz: Ouça, minha senhora, porque ainda que Deus chamou a si meu amo, se a minha senhora resistir á sua vontade talvez que, para a castigar lh’o restitua. Nem mais uma lagrima, nem mais um suspiro, tão sincera era a dor da viuva!
Geral · Interpretacção incerta
Modelo de linguagem
Morrendo o chefe de uma numerosa família, ficou esta consternadissima; perguntou-se a um visinho sapateiro como iam passando a viuva e os orphãos, respondeu: «Estão todos n’uma clausura e n’uma sinedura tal, que nem pestanejam nada pela boca fóra.»
Geral
Um cá por que
Lê-se no Jornal de Lisboa: Um negociante mandou pedir a um amigo seu seis albardas, para irem em uma representação que d’ahi a poucos dias tencionava dar. O guarda livros, que foi quem fez a carta, enganou-se escrevendo albardas em lugar de albardas. Recebendo a encommenda, o negociante ficou admirado, mas sabendo do engano exclamou: Agora percebo, são cinco para o meu guarda livros que se enganou, e um é para mim, por ter assignado a carta sem a ler.
Lisboa · Portugal Correspondência
Um morto que fallava
Vivia em uma certa aldêa um sapateiro que se tinha imposto o dever de velar os mortos da localidade. Muito lhe agradeciam tão caritativa complacencia, e o sapateiro tinha-se por bem pago do incommodo com os emboras dos parentes e visinhos dos finados. Lembraram-se certo dia uns estudantes de pregar uma peça ao bom do sapateiro. Ajustaram-se entre si que um d’elles se fingisse morto e se deixasse velar pelo sapateiro, a fim de lhe causarem depois um susto com a apparição do que elle julgava morto. Procurou um dos estudantes o sapateiro e disse-lhe: Venho pedir-lhe um favor, mestre: Morreu F. ... e como não tem mulher nem filhos que o acompanhem, espero que o mestre lhe fará essa obra de caridade. O sapateiro metteu a ferramenta na alcofa, sobraçou as botas começadas, e partiu para casa do defuncto. Encontrou chorosos os amigos do supposto finado, e deitada na cama uma figura pallida, de olhos cerrados e com um barrete branco enterrado até ás sobrancelhas. Rezou um devoto Padre Nosso, e começou a trabalhar nas botas começadas. Á meia noite trouxeram-lhe café e com um copinho de aguardente. O estudante já dizia mal á sua vida e ao papel de defuncto que estava fazendo. O sapateiro, confortado pela aguardente e disposto a não se deixar vencer pela tristeza, começou a cantar o Rei Chegou, modinha da sua predilecção. Ao estudante pareceu occasião própria para se safar; e levantando meio corpo, disse com voz sepulchral: —O tu, chumeco de Satanaz! Quem acompanha defunctos não canta! O sapateiro, aterrado a principio, acabou para logo todo o seu aprumo, e empunhando o tirapé e zurzindo com elle o estudante, desfechou-lhe este axioma: —Pedaço de maroto! Quem está morto não falla.