Acontecimentos na Europa
Promettemos em a nossa pretérita revista, sobre os successos que mais preoccupam o mundo diplomático, fallar ácerca da importante questão—as fronteiras gregas—que tem sido largamente tratada na imprensa, questão que parece ter chegado ao seu termo. No palacio do príncipe de Hohenlohe, segundo as correspondências enviadas de Berlim ás folhas parisienses, procurou já a conferencia de Berlim resolver esta questão n’uma sessão preparatória na qual se regulou tudo quanto diz respeito á ordem e processo dos seus trabalhos. Outras sessões terão logar e poremquanto cousa alguma ha que nos leve a duvidar do bom exito de tão importantes trabalhos. Ouçamos no entanto o que nos diz a Republique Française: O accordo far-se ha, de certo, entre todas as potências. Sabe-se, com effeito, que todos os membros do congresso de Berlim, acceitando as propostas que partiram da iniciativa de França, se mostraram favoráveis ás justas pretenções da Grécia, ratificando-as solemnemente, embora n’uma forma um pouco vaga, no texto do tratado. Concordou-se que a Grécia seria compensada pela sua boa attitude durante a guerra por meio de uma rectificação de fronteiras, que teria podido obter com armas na mão, mas que preferiu dever a uma politica bem entendida e á racional submissão aos conselhos da Inglaterra e da França. De todas as pequenas nacionalidades do Oriente, foi a Grécia a única que não se envolveu no sanguinolento conflicto que dilacerava a Turquia em fragmentos; e não porque não estivesse em estado, como as outras, ou ainda em melhores condições, de representar o seu papel n’uma aventura em que as derrotas eram tão proveitosas como as victorias, mas porque não quiz ajuntar mais um elemento de perturbação áquelles que já tão profundamente convulsionavam a Europa. Urgia, pois, que a sua moderação não se convertesse em logro, em burla: porque, dando-se o caso de assim succeder, o exemplo teria sido deploravel para o mundo, e a própria Grécia victima da sua prudência, e impellida, a procurar a primeira occasião para fazer revisar pela força o que a sabedoria lhe não deu. Foi isto o que se resolveu no congresso de Berlim. Diz porem com muita rasão um correspondente:—«Infelizmente, o congresso terminou pelo fogo de artificio que lord Beaconsfield fabricou para sua maior gloria pessoal nas margens da ilha de Chypre. E os gregos deviam de pagar os foguetes, naturalmente.» A causa da Grécia, aliás justissima, conforme todos sabem, não teve desde a sua origem campeões mais ardentes que lord Beaconsfield e o marquez de Salisbury. Mas o facto é que do meado das sessões por diante, os plenipotenciários inglezes concordaram em a abandonar, o que fizeram posto que lentamente, e na occasião em que o tratado era assignado, estava dominado pela mais absoluta frieza. Eis um facto que nem mesmo as folhas favoráveis á politica do marquez de Salisbury tentam contestar. Deve acreditar-se que, pelo facto do sacrifício da Grécia, foi que o ministerio conservador obteve tão largas concessões em Chypre? Difficil é de saber á justa este ponto obscuro da politica, mas não é absolutamente temerario suppor que a verdade anda por ahi. O que é certo é que, a partir do encerramento do congresso de Berlim, a diplomacia franceza encontrou sempre da parte da Inglaterra a mais pronunciada má vontade, todas as vezes que procurava conseguir das potências o cumprimento das suas promessas, feitas em commum á Grécia, e emquanto a Allemanha, a Italia, a Áustria e a própria Rússia, mostravam por diversas graduações as melhores disposições, a Inglaterra recusava obstinadamente toda e qualquer combinação que podesse obrigá-la, e de forma alguma queria obrigar-se ao assumpto. A França, pois, retomando parte activa na questão mostrou aos gregos a sua alta sympathia pela causa do direito e da justiça. Um despacho de Athenas ao Daily-Telegraph diz que a nova fronteira grega partindo dos pincaros mais elevados do monte Olympo segue a Ralpari, Calamans e d’ahi vae até ao mar. Ficará esta questão resolvida assim? As noticias que temos respondem affirmativamente. As folhas recemchegadas de Paris occupam-se largamente ácerca da ordem de expulsão contra os jesuítas e bem assim da attitude do senado para com o projecto de amnistia ampla. A ordem de expulsão deu logar, conforme era de esperar, a muitos protestos levantados pelos jesuítas na occasião em que a auctoridade collocava os sellos nas portas das abbadias; em vários conventos os padres encerraram-se nas cellas e esperavam que a policia os obrigasse a sahir á força. Nas ruas algumas mulheres fanatisadas pelos membros das congregações não reconhecidas pelo estado não só pediam a benção aos padres mas levantavam gritos sediciosos contra a actual ordem de cousas, dando vivas aos jesuítas e ao Vaticano. A ordem porem não foi alterada. Conforme era de esperar o senado não se mostra favoravel ao projecto da amnistia ampla. A camara é de opinião que deve haver clemencia mas não para os que tomaram parte na revolução communalista de Paris. É este um assumpto de muitissima importância e que pode dar logar a graves successos. O dualismo entre as duas camaras começado na discussão do artigo 7.º das leis de Ferry está agora rectificado. O facto, porem, não espanta a pessoa alguma. A democracia, conforme temos por vezes dicto, impõe-se a todos os governos; é poderoso o seu influxo e cousa alguma ha que lhe possa resistir. Não é só os governos da monarchia na Europa que se encontram na necessidade imperiosa de lhe obedecer—no Oriente, entre as tricas muitas vezes forjadas nos haréns, os governos sentem igualmente a mesma necessidade e nem por outra forma se explica a revolução liberal e democrática que se apresenta em Constantinopla e nas demais capitaes dos paizes que tem passado afastadas do trato europeu e sujeitas ao marasmo desde que a civilisação cahiu entre elles. A propósito vamos transcrever uma importante communicação de Tokio, Japão, á Italie, de Roma: «O governo japonez que, como é já sabido, pede uma revisão dos tractados de commercio concluídos com as potências estrangeiras, e tem a intenção de augmentar os direitos de entrada, communicou recentemente e pelas vias officiaes as suas propostas a este respeito aos representantes das potências respectivas acreditadas junto da nossa côrte. O governo japonez, com o fim evidente de dispor favoravelmente a seu respeito os governos respectivos, e para conseguir a acceitação das suas propostas, assim como para facilitar a abertura das negociações em Tokio, procedeu a uma série de modificações na sua representação diplomática no estrangeiro.» O movimento que se accentua no Japão confirma plenamente o que temos avançado. O Oriente prepara-se para receber o influxo da democracia e do progresso e oxalá que as victorias se succedam ali umas após outras. Já que de novo fallamos nos successos do Oriente não podemos deixar de mencionar um facto que produziu agradavel impressão em Berlim—referimo-nos ao tratado entre a Allemanha e a China, tratado que foi agora revisto, e que, segundo telegrapharam de Pekin para Berlim, ficou resolvida a concessão para o estabelecimento de depósitos allemães no celeste imperio. As folhas allemãs applaudem essa resolução e manifestam a esperança de que a China em breve entre em largas relações commerciaes com todas as potências da Europa, medida de ha muito reclamada pelo commercio chinezo que tem reconhecido a necessidade das mesmas relações para que possa attingir ao ponto de grandeza a que tem jus. O telegrapho forneceu-nos n’estes ultimos dias uma noticia importantissima—o rompimento das relações diplomáticas entre a Bélgica e o Vaticano, e, segundo o Times, o gabinete de Bruxellas retirará no começo do corrente mez o seu embaixador junto á côrte pontificia. Faltam-nos informações mais amplas para que possamos fallar meudamente ácerca d’este assumpto e por isso o reservamos para occasião mais opportuna.