O BEJENSE

JORNAL DE UTILIDADE E RECREIO

Edição n.º 97Beja, 1 de Novembro de 18628 notícias

Acções do príncipe

S. A. o príncipe Humberto, irmão da rainha de Portugal, a sr.ª D. Maria Pia, tendo visitado differentes pontos de Portugal tem por toda a parte deixado signaes da sua visita. Em Coimbra esmolou as religiosas de Santa Clara com 95$000 reis, o asylo de mendicidade com 43$000, e quantia igual ao asylo d’infancia. No Porto, onde veio terminar seus dias o faustoso rei Carlos Alberto, fez os seguintes donativos, mandados distribuir pelo sr. cônsul d’Italia: asylo de mendicidade, 540$000; raparigas abandonadas, 360$000; recolhimento das meninas desamparadas, 360$000; asylo d’infancia desvalida, 450$000; recolhimento dos orfãos, 360$000; recolhimento do Codeçal, 270$000; e finalmente para a sopa economica dos operarios sem trabalho, 360$000 — total 2:700$000 reis. S. A., antes ainda de tanto esmolar, havia sido [ilegível] em toda a parte por onde passara com grandes mostras de contentamento.

Coimbra · Porto · Itália · Portugal Exterior / internacional

Bastão de marechal

Foi elevado a marechal do exercito o sr. conde da Ponte de Santa Maria. Marechaes do exercito temos nós, mas exercito, viste-o.

Desastre

No dia 27 deste mez uma creança de 4 annos, andando a brincar junto a uma nora que trabalhava na quinta da Ponte do Mouro, introduziu a cabeça nos dentes do engenho, de que foi victima. É lamentavel a falta de vigilancia para com as crianças.

Islâmico

Incêndio

No lugar competente publicámos o agradecimento de Catharina Vasques e Francisco Peres Morano, dado ao povo da villa de Cuba que tanto concorreu para a extincção do fogo, que teve logar na casa de sua residência, no dia 28, cujo fogo, por informações que obtivemos, levou o seu prejuizo a 150$000 rs. approximadamente, e que maiores estragos faria a não serem os esforços dos habitantes daquella villa.

Cuba · Portugal

Prisão importante

No dia 28 deu entrada na cadeia desta cidade, vindo de Ferreira, Manoel Antonio, natural de Castro Verde, que havia annos era buscado pela justiça, pelo crime de morte praticado em sua própria mulher. Não sabemos quem foi a auctoridade que capturou o assassino, mas se pedimos que as penas da lei lhe sejam impostas, damos os nossos louvores áquelle a quem se deve a sua captura.

Castro Verde · Portugal

Expediente

Á correspondência vinda de Castro Verde não damos publicidade por não vir assignada nem reconhecida. A redacção não pode tomar responsabilidade de factos que inteiramente desconhece.

Castro Verde · Portugal Correspondência · Geral

Cárcere privado

Referem os jornaes da capital, que n’uma casa da freguezia da Lapa estavam vivendo n’um subterrâneo duas creanças herdeiras d’uma grande fortuna. Parece que a auctoridade fez varias buscas sem poder descobrir a verdade, até que, no dia 21 do corrente, soltando ali, encontrou a entrada occulta para o subterrâneo, e n’elle as duas creanças, victimas de tão atroz violencia. Diz-se que a justiça as tirou d’ali e as collocou em um recolhimento. Não se sabe por ora qual é a pessoa que as escondeu para as requestar á sociedade, com o fim de satisfazer tão desregrada ambição, subtrahindo-lhes a herança, nem se sabem mais pormenores.

Geral · Interpretacção incerta

Um caso extraordinário

Deu-se ha dias no lugar do Forno, na freguezia do Rio Tinto, um caso extraordinário, que seria licito duvidar d’elle se nos não tivesse sido contado por uma testemunha presencial. Foi o caso que em uma das noites passadas estava um lavrador, rico, da mesma freguezia e lugar, em uma esfolhada, e ouviu que sobre uma nora d’agoa, que ali estava próxima, caiam pedras de espaço a espaço. Procurando-se conhecer quem lançava as pedras, não foi possível ver alguém, não deixando apesar d’isso de continuarem a cair pedras. O facto, a que não acharam explicação, atemorisou profundamente toda a gente que estava na esfolhada, e d’ahi seguiu-se que começaram a gritar. Acudiu muita gente a presenciar o facto e admirar o caso. As pedras não cessaram de cair. Toda a gente fugiu afinal espavorida. O lavrador, porém, por nome Antonio Perusas, e toda a sua familia, retiraram-se mais impressionados que ninguém, e cairam de cama doentes de tal sorte, que o lavrador falleceu no domingo passado, uma sua filha na segunda feira immediata, e a mulher na terça feira. Mas o mais extraordinário disto é que uma outra filha, já casada e residente no lugar d’Amieira, da mesma freguezia, indo de Rio Tinto para sua casa, caiu no caminho com um accidente e, sendo levada em braços para a cama, corria ante-hontem grave risco de vida, na opinião de um facultativo residente em Medancellhe, que foi chamado a visitar a doente. Mas o que é notável é a explicação que o povo dá a este caso singular. Uma lavadeira daquelles sítios, a quem hontem ouvimos assegurar o facto, perguntada sobre a razão por que se dera uma tal serie de fatalidades, respondeu que toda a gente dizia lá pela freguezia que «Deus não dorme e o alheio chora por seu dono», e que a familia com quem se dera o caso tinha restituições a fazer, porque possuía, por sentença judicial que lh’os dera, uns bens de grande rendimento, que de direito lhe não pertenciam. Relatamos o facto e a irrisória opinião. Commente-os, ou procure-lhes a explicação, o leitor investigador. — Jornal do Porto.

Porto · Portugal